Chegou o basquetebol a sério – antevisão da 1.ª ronda dos playoffs

por abr 15, 2023Lucas Niven

Chegou o basquetebol a sério, finalmente o tal ‘bicho diferente’ está perante nós. O que esperar da primeira ronda? Que vantagens pode cada equipa tentar explorar para vencer a sua série, e onde reside o factor X de cada uma? Passei pelos oito matchups que nos aguardam, e fui tentar perceber; no fim, uma aposta para cada uma delas, num exercício do qual me vou inevitavelmente arrepender.

Cleveland Cavaliers (4) vs New York Knicks (5)

O xadrez: A terceira melhor defesa de 2023, a dos Cavs, terá de estar no seu melhor (os Knicks são o melhor ataque do campeonato desde a chegada de Josh Hart… e só contaram com Brunson em 16 desses 26 jogos). Ainda não sabemos com certeza a disponibilidade de Julius Randle para o início da série, mas enquanto os Knicks jogarem com “Randle + poste” (M-Rob/Hartenstein), essa fórmula deverá favorecer Cleveland, colocando o móvel Mobley no extremo dos Knicks. Brunson será um problema, e os Cavs não deverão conseguir colocar Okoro no base, já que tanto Mitchell como Garland cedem muitos centímetros a RJ Barrett nessa troca de marcação. Ignorar o outro extremo dos Knicks e obrigá-lo a pagar de triplo pode ser uma estratégia, utilizando Okoro numa ajuda próxima aos bloqueios directos de Jalen Brunson. O ataque de Cleveland passa por fases onde parece ter os pés enfiados na lama, e aí deverão tentar envolver Brunson no máximo de acções possíveis; os Knicks serão espertos em ‘escondê-lo’ em Okoro, usando Grimes e Barrett na defesa aos dinâmicos bases.

Os Knicks sabem que estará Garland ou Mitchell na defesa a Brunson, e deverão explorar constantemente esse matchup. Se os Cavs optarem por colocar Okoro, então RJ Barrett terá de tirar partido no interior da vantagem que terá sobre um dos bases. Thibodeau quer sempre jogar com um poste ao lado de Randle, mas esta pode muito bem ser uma série em que os Knicks serão a melhor equipa se jogarem small ball, e têm as peças para o fazer: com Hart e Quickley a sair do banco, podem deixar um de Allen ou Mobley sem referência, e ter mais gente para atacar os bases. Veremos se têm coragem para o fazer; a eventual ausência de Randle no jogo 1 pode forçar Thibs a descobrir ouro onde não sabia que tinha.

O factor X: RJ Barrett. A sua prestação nesta série pode ir desde ‘sentado no final de jogos em prol de Hart até small ball 4 que obrigou os Cavaliers a jogar apenas com um big’. Vai ser a chave táctica da equipa dos Knicks no ataque, e na defesa (se Brunson for ‘escondido’ em Okoro) terá oportunidade de se fazer valer ao limitar um dos bases de Cleveland.

A previsão: Tinha muita vontade de confiar um bocadinho mais em Thibodeau (e ter Randle na melhor forma), e apostar no upset. Cavs em 6.

Phoenix Suns (4) vs Los Angeles Clippers (5)

O xadrez: Irão os Clippers colocar Kawhi maioritariamente em KD? A ideia parece ser clara, colocar o melhor defensor no melhor atacante; o problema é o efeito cascata que pode causar. Dois de Mann/Russ/Gordon/Powell estarão sempre em campo (pelo menos enquanto Paul George estiver de fora), e destes apenas Terance Mann se afigura como um defensor competente face a CP3/Booker. Zubac ou Plumlee jogarão sempre os minutos de Ayton, pelo que sobra Nicolas Batum, cuja versatilidade defensiva pode ser desperdiçada nos estacionários Okogie/Craig. Assim, talvez a melhor hipótese dos Clippers seja em utilizar Batum em KD para o limitar, deixando Kawhi com Booker, permitindo que Westbrook ou um dos bases seja mais vezes afastado de acções directas, ficado com Okogie/Craig.

Quando os Clippers tiverem a bola, a curiosidade é saber como os Suns irão abordar a defesa a Russ. Irão manter um dos bases, obrigando-o a algum desgaste quando houver jogo em bloqueio directo, ou utilizarão por exemplo KD, desrespeitando o triplo do ex-colega, assumindo um papel mais livre para ajudar o resto da defesa? Neste segundo cenário, terá de ser Craig a assumir a marcação a Kawhi, algo que poderá conseguir com algum efeito, se a ajuda não andar longe; Chris Paul pode aí ser “escondido” em Batum ou Marcus Morris, utilizados apenas como spacers no meio-campo ofensivo

O factor X: Isto pode ser ingrato para ele, mas… Paul George. Será uma série sem história sem ele; com a inclusão de um All-Star dos dois lados do campo, os Clippers ganham um marcador de pontos, uma resposta defensiva para Booker e KD, e podem sonhar pelo menos em prolongar a série.

A previsão: Demasiado poder de fogo, frente a uma equipa que ainda não sabe o que é. Suns em 5.

Philadelphia 76ers (3) vs Brooklyn Nets (6)

O xadrez: Não nos deixemos enganar pelo seed dos Nets, esta série tem tudo para ser desequilibrada. A equipa de Brooklyn tem um diferencial de pontos negativo desde que trocou as suas duas estrelas, e o ataque é o 8º pior da NBA desde então. O dos Sixers é o 2.º em 2023, uma máquina eficiente de fazer pontos onde tudo começa na dinâmica Harden-Embiid. Assumirá Mikal Bridges a defesa ao ‘Barbas’? Temos de assumir que sim, para os Nets terem alguma hipótese desse lado. Os Sixers não são particularmente fortes no ressalto ofensivo, o grande calcanhar de Aquiles da defesa dos Nets, e estes deverão aproveitar todas as oportunidades para sair em transição, onde a equipa de Philadelphia demonstrou grandes dificuldades o ano todo. Claxton terá de fazer todos os minutos de Embiid e tentar manter-se fora de problemas de faltas, caso contrário os Nets não terão a menor hipótese.

Do lado dos Nets, quando tiverem de atacar em meio-campo, resta-lhes envolver Embiid em bloqueio directo, na esperança de o desgastar ou de o carregar com faltas. O poste prefere defender em drop, e isso pode abrir avenidas na linha de 3 pontos a uma equipa que deverá jogar sempre com a fórmula “Claxton + 4 atiradores”. Estes Nets são de longe a pior equipa a marcar pontos no pintado, e com certeza o camaronês não irá facilitar nessa tarefa.

O factor X: Nic Claxton. É a ele a quem será pedida defesa competente face ao presumível MVP, numa rotação interior demasiado magra em Brooklyn, onde sem ele a coisa poderá ficar muito feia, muito rápido. A defesa dos Nets está assente no poste a fazer de dique, e Embiid é um tsunami a aproximar-se da margem.

A previsão: Dou um jogo aos Nets, ganhos ‘à bomba’, da linha dos 3 pontos. Sixers em 5.

Sacramento Kings (3) vs Golden State Warriors (6)

O xadrez: Apesar do ataque dos Kings ter roubado todas as atenções, estas são duas equipas que apresentam exactamente o mesmo NetRtg em 2023 (+3.6, 7º na NBA); nos playoffs, a equipa de Sacramento tentará evitar que seja a sua defesa a fazer cabeçalhos, seria um péssimo sinal. No ataque, irão fazer aquilo que fizeram o ano todo: utilizar Sabonis como ponto principal de criação e a partir de onde tudo acontece, e é expectável que seja Looney a encaixar no lituano, já que toda a gente em Sacramento é capaz de atirar de fora, não havendo por isso onde esconder o poste. Keegan Murray é a opção ofensiva mais ‘estática’, e pode ser utilizada para esconder Steph. Isto pode permitir a Wiggins responsabilizar-se por De’Aaron Fox, e incomodar o base com a sua envergadura, ficando Klay a correr atrás de Huerter/Fox, e Draymond Green a ajudar enquanto controla Harrison Barnes.

Quando os Warriors tiverem a bola, sabemos que Draymond Green estará altamente envolvido nas acções, e quererão trazer Sabonis tantas vezes quanto possível. Mike Brown pode encaixar o lituano com Kevon Looney, onde terá de ser corajoso e não defender os bloqueios directos num drop muito profundo. Domas será sempre negativo na defesa, é uma questão de minimizar o dano. Já sabemos que ao Warriors simplesmente não marcam da linha de lance livre nem do pintado, por isso os Kings terão de se manter agarrados aos lançadores de Golden State – Monk, Huerter e Murray podem passar um mau bocado. Os Warriors têm tido muitos problemas de turnovers o ano inteiro, e esta poderá ser a série errada para se ressentirem disso; os Kings estão muito confortáveis em sair em transição, e foram a melhor equipa de 2023 na transição defesa. Talvez por uma vez, esta seja uma série que os Warriors não tenham o maior interesse em jogar tão rápido quanto possível

O factor X: Conseguirão os Kings tirar Looney da série? Com Sabonis e 4 lançadores, isso praticamente obriga a colocá-lo no lituano, onde pode chegar atrasado às entregas de bola à mão feitas aos atiradores da equipa. Do outro lado, podem utilizá-lo para esconder o lituano e minimizar o seu envolvimento em acções com Draymond Green. A saída de Looney pode implicar mais Poole (perigoso pelos turnovers/defesa) ou Kuminga (alguém onde poderá ser escondido um defensor dos Kings), e a equipa de Sacramento pode tirar vantagem. Di Vicenzo pode ser a solução, para os californianos.

A previsão: Os Warriors têm o pedigree, o estatuto, e Curry/Klay/Green não perdem uma série que tenham jogado completa desde… 2014. Adorava, adorava dizer Kings em 7. Warriors em 6.

Boston Celtics (2) vs Atlanta Hawks (7)

O xadrez: Acho que é justo dizer que houve um suspiro de alívio em Boston quando os Heat vacilaram no play-in, e a sorte ditou que não se repetisse a final de conferência do ano passado, desta vez logo na primeira ronda. Os Celtics são estatisticamente a melhor equipa de 2023, e estes Atlanta Hawks não devem representar grande perigo. A oitava pior defesa do ano não deverá ter respostas para Tatum e Brown, por muito que se esforcem Hunter e Dejounte Murray. Trae Young será explorado pelo outro base dos Celtics, seja ele quem for, e não terá por onde se esconder, desencadeando o melhor spacing da liga num festival de triplos.

Do outro lado, a coisa ainda pode ser mais feia: entre Smart e White, Boston está ultra equipada para parar Trae, e apesar dos Hawks raramente perderem a bola, os Celtics forçam uma qualidade de lançamento péssima ao adversário (oponentes de Boston lançam a 3ª eFG% mais baixa, e 3ª percentagem de triplo mais baixa). Até no ressalto ofensivo, onde os Hawks dizimaram os Heat, os Celtics dominam: foram a melhor equipa a impedi-los aos adversários, em 2023, sendo ainda top-5 a prevenir pontos de segunda oportunidade. Por onde quer olhe, apenas vejo um mau bocado a ser passado para Quin Snyder e companhia

O factor X: Trae Young. Segundo ano consecutivo em que vai defrontar uma das melhores defesas do campeonato, com um adversário que parte como favorito e tem o base no topo do seu scouting report. Conseguirá o base prolongar ao máximo a série, ou repetirá o péssimo desempenho do ano passado contra os Heat? No play in provou conseguir melhorar, mas dificilmente o suficiente para virar a série que tem pela frente

A previsão: Sem história. Celtics em 4.

Memphis Grizzlies (2) vs Los Angeles Lakers (7)

O xadrez: Outro matchup em que o seed inicial pode enganar: os Grizzlies estão 20-16 desde que perderam Steven Adams (NetRtg +2.2), e os Lakers são uma das melhores equipas do campeonato desde a trade deadeline, com um NetRtg de +4.4, e a terceira melhor defesa nesse período. Os Grizzlies utilizarão Ja Morant no máximo de acções possíveis, já que encaixa claramente no ponto fraco da equipa de LA: defesa de ponto de ataque; aos Lakers pouco mais resta do que passar por baixo de todos os bloqueios directos e tentar conter a penetração do base, provavelmente o jogador que coloca mais pressão no aro na NBA atualmente. Aí, o encontro com AD será inevitável, e quem levar a melhor tem uma palavra grande a dizer sobre o desfecho da série. Tillman oferece zero no meio-campo ofensivo, e dá a oportunidade aos Lakers de jogar com mais versatilidade defensiva: colocam Davis nele, aproveitando para estar mais presente nas ajudas, ou aproveitam o poste para esconder alguém menos capaz na defesa? Qualquer que seja a escolha, é preciso ter cuidados extra no ressalto ofensivo.

Do outro lado, a mesma questão: irão os Grizzlies colocar Tillman ou o mais que provável defensor do ano em Anthony Davis? Tillman terá algumas dificuldades na defesa de bloqueio directo, mas permite a JJJ estar associado a um não-lançador (Vanderbilt) e exponenciar a sua protecção de cesto. Seria a minha aposta, dado que ter Jaren Jackson directamente em AD coloca-o num risco muito maior de estar associado a problemas de faltas. Sabemos que Dillon entrará dentro da camisola de LeBron, e é uma série onde deverão atacar Ja sempre que possível (e Kennard, quando estiver em campo).

Factor X: Jaren Jackson Jr. Os Grizzlies precisam do extremo-poste no topo do seu jogo defensivo; quaisquer problemas de faltas, contra uma equipa que ataca bastante o pintado, pode significar uma sangria em Memphis.

A previsão: Que também se reveste de alguma esperança. Lakers em 6.

Milwaukee Bucks (1) vs Miami Heat (8)

O xadrez: Bem, os Heat lá acabaram por conseguir entrar na dança; ao que tudo indica, serão expulsos do salão sem grande cerimónia. Jrue, Giannis e Brook são encaixes defensivos terríveis para Miami, oferecendo respostas a quase tudo o que Jimmy Butler e Bam Adebayo lhes possam atirar. Pouco mais restará a Miami que não ir all in na fórmula “Bam + 4 lançadores”, afastando Brook Lopez do aro e tentando gerar lançamentos de fora com qualidade.

Os Bucks não terão grande dificuldade em atacar alguns dos pontos fracos desta defesa, com Lowry, Herro e Strus a poderem passar um mau bocado. A diferença de tamanho entre as equipas é gritante: se Capela causou aquelas dificuldades todas ao frontcourt dos Heat, imagine-se os gigantes que habitam no pintado de Milwaukee.

Factor X: Eric Spoelstra. Os Heat serão um petisco para estes Bucks 99 em cada 100 vezes, o que não implica que Spo seja um treinador muito mais capaz do que Mike Budenholzer. Numa série onde nada tem a perder, conseguirá o treinador dos Heat ‘inventar’ um milagre? Provavelmente esse milagre nem existe, mas ele irá tentar.

A previsão: Por respeito a Spo e Jimmy, 4-1

Denver Nuggets (1) vs Minnesota Timberwolves (8)

O xadrez: Dos 4 adversários que poderiam ter saído aos Nuggets, julgo que dificilmente se queixarão do que lhes coube em sorte. Os Timberwolves raramente obrigarão a equipa de Denver a alterar a sua filosofia defensiva; Porter Jr. terá oportunidade de se ‘esconder’ em Prince/NAW, Jokic encaixará em Gobert e Aaron Gordon em KAT. Os Wolves terão a oportunidade de atacar Jokic no espaço nos minutos de Towns a 5 (com Kyle Anderson ao seu lado), e veremos quão rápidos serão a fugir à fórmula de 2 postes – que foi a receita que lhes salvou a época.

Jokic já provou no passado que Gobert não é competição para ele na defesa, e muito menos será KAT: quando estes partilharem o campo, os Nuggets irão massacrar Towns, envolvendo o poste numa série de acções com Aaron Gordon à base de cortes alimentados pelo poste sérvio que deixarão a cabeça em água a Chris Finch, gerando uma torrente de triplos abertos pelo caminho, um defeito gigante das defesas com Gobert-KAT. Jamal Murray será presumivelmente defendido por Anthony Edwards, e terá aqui um teste real (e bastante duro) à fase física e técnica em que se encontra neste momento, e os Wolves precisam que o miúdo aqui leve a melhor

Factor X: Anthony Edwards. Para além do papel defensivo que irá ter em Murray, não tem absolutamente ninguém que o defenda do outro lado (Kentavious Caldwell-Pope irá tentar). Depois de passar ao lado do jogo frente aos Lakers, fez um grande jogo colectivo contra os Thunder apesar da marcação feroz de Lu Dort, mas precisamos de uma terceira versão dele contra os Nuggets: o da superstar em afirmação, alguém que vai pegar na bola, reconhecer que é o ponto mais forte do seu ataque nesta série, para o qual a defesa tem poucas respostas. A hipótese dos Wolves reside em Ant fazer a série da vida dele.

A previsão: Demasiado talento ofensivo para uma defesa pouco rotinada. Nuggets em 5.

por LUCAS NIVEN [@lucasdedirecta]

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