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NBA Draft 2020: Maus alunos ou apenas mal amados?

Depois de meses de impasse, o NBA Draft de 2020 realizar-se-á, finalmente, esta quarta-feira, 18 de novembro.

Há muito rotulado de um ‘mau Draft’, a classe de 2020 não é a pobreza franciscana que muitos acreditam. Aquilo que realmente falta neste Draft é um claro prémio na posição #1. Não há Zion nem Luka. Não há um Cade Cunningham, como em 2021. Mas esta classe está recheada de valor do top-5 para baixo, a meio da lottery e até no fim da 1.ª ronda.

Vamos juntos numa viagem de 2000 palavras sobre os prospects deste ano, onde tentaremos perceber quem são os candidatos à escolha #1, quem são as pérolas escondidas, e porque é que os OKC Thunder vão escolher um jovem que não sabe lançar.

O enfant terrible no topo do Draft

LaMelo Ball, o conhecido rebento do artista de variedades LaVar Ball (e irmão de Lonzo), é o meu prospect #1. Depois de um ano nos Illawara Hawks, da NBL (Austrália), LaMelo surge como o jogador com maior probabilidade de se tornar aquilo que todas as equipas devem procurar na escolha #1: Um motor ofensivo de perímetro. O ‘mai novo’ da família é um base de 2 metros que consegue meter a bola no cesto, mas acima de tudo é um distribuidor corajoso e ultra criativo, que comanda o Pick&roll (P&R) com grande panache, uma visão de panóptico e um drible ultra habilidoso.

 

As falhas são evidentes: O lançamento é inconsistente (apesar dos 25% de 3PT não contarem toda a história), a defesa é, por vezes, um desastre e o físico precisa de evoluir para que ‘Melo consiga penetrar e finalizar dentro do garrafão.

Com Ball, os altos vão ser muito altos, e os baixos serão muito baixos. É preciso paciência e um sistema que lhe dê a bola a tempo inteiro para errar e aprender. Contudo, LaMelo é a maior upside play do Draft, um pequeno génio. Apesar de achar ‘Melo o melhor jogador do Draft, há que ser pragmático: A fit defensiva com Russell e KAT é tenebrosa, e é difícil ver Ryan Saunders desenhar um plano ofensivo que optimize os três. Gostaria de ver Gersson Rosas premir o gatilho, mas é difícil não pensar numa troca para baixo.

Na disputa

Anthony Edwards é outros dos candidatos a escolha #1. Um wing da Universidade da Georgia, ‘Antman’ entusiasma pelo físico de linebacker da NFL, explosão e a facilidade com que cria o seu próprio tiro, tornando-o um possível criador secundário a partir da posição 2.

 

O problema com Edwards é que há muito de Andrew Wiggins nele: péssima selecção de lançamento, um passador ‘meh’ e um defensor que, apesar do potencial físico, é bastante distraído e um desastre colectivamente. Tem um motor que vai e volta e é facilmente batido no 1v1 por jogadores fisicamente inferiores. Edwards é alguém mais ready made que Ball: Não precisa da bola a todo o tempo no ataque (corta bem, corre em transição), e tem um corpo mais do que pronto para a liga. Porém, ‘Antman’ não deixa de ser uma escolha tão ou mais arriscada que LaMelo, que pode descarrilar se não tiver um contexto ideal.

Em James Wiseman (Universidade de Memphis), temos o big de eleição do Draft. Wiseman é um potente atleta norte/sul, com as medidas prototípicas de poste (216 cm, 109 kg, 228 cm de envergadura). É um prospect que oferece, com certeza, duas coisas: Ser um rim runner a atacar no P&R, ao jeito de DeAndre Jordan, e um guardião do garrafão, que utiliza o seu tamanho e envergadura para intimidar ataques ao cesto.

 

O ecossistema da NBA, porém, joga contra Wiseman. O poste de hoje precisa de mobilidade lateral para defender em coberturas mais agressivas no P&R (trocas, hedges, traps), que Wiseman simplesmente não tem. Junto a isso, Wiseman não tem os instintos mais brilhantes do mundo: é alguém que consegue ver a jogada à frente dos seus olhos, mas que não antecipa o jogo, da maneira que os melhores defensores fazem.

Wiseman é um talento interessante, mas não é, de todo, um unicórnio, em nenhum dos lados do campo. Aquilo que ele oferece é bom, sim, mas não top-3 bom, na minha opinião.

A morder os calcanhares de Wiseman para a honra de melhor poste do Draft, surge o discreto Onyeka Okongwu, de USC. O freshman, que já foi colega dos três irmãos Ball em Chino Hills, não tem uma dimensão física tão imponente (206 cm, 111 kg, 216 cm de envergadura), algo que o pode prejudicar no poste baixo contra os Embiids desta vida, mas é um protector de cesto mais confiável, com disciplina e sentido posicional. A defender o P&R, é mais versátil que Wiseman, sendo capaz de se manter com alguns bases em trocas, ou jogar em coberturas mais agressivas.

No ataque, ‘OO’ vai ser um rim runner sólido, alguém que esporadicamente pode jogar de costas para o cesto e que tem flashes com passador. As comparações com Bam Adebayo são mais que muitas. Não posso dizer que concordo a 100%, mas existe séria margem de progressão no californiano.

Na luta do top-5 há ainda outros nomes: Obi Toppin, extremo-poste de Dayton é uma autêntica máquina ofensiva que corre no P&R, oferece espaçamento, joga de costas para o cesto e passa bem. O problema é que o Naismith College Player of the Year (Jogador do ano na NCAA) é uma peneira na defesa: Toppin combina um péssimo sentido posicional, tanto a defender o P&R como a proteger o garrafão, com um físico desproporcional (tronco musculado, mas pernas de quem ficou em casa no leg day), que o faz perder constantemente o equilíbrio quando defende no espaço ou até no poste baixo.

Toppin vai produzir imenso e encher o box score, não tenho dúvida alguma disso, mas é preciso entender que é alguém que tem falhas defensivas muito, muito atacáveis.

Killian Hayes: um grande amor

O meu Europeu #1 é um franco-americano que passou o último ano a jogar pelo Ratiopharm Ulm: Killian Hayes. Hayes é um base de 196 cm, que apesar de não ser um atleta explosivo, tem uma boa estrutura física e cria separação no 1v1 com mudanças de direcção e velocidades a partir do drible. Ora reparem neste bailado laranja:

 

Acrescendo a isso, Hayes é um dos distribuidores mais maduros e inteligentes do Draft, e apesar de não ser um sniper a partir do exterior, converte muito bem a partir da linha de lance livre e tem vindo a mostrar cada vez mais conforto a disparar a partir do drible vivo. Este stepback 3 é muito avançado para alguém desta idade.

 

Um dos maiores problemas com Killian é a sua mão direita. Hayes faz tudo impecavelmente com a mão esquerda, mas mostra-se muito desconfortável a atacar, finalizar e passar com a direita, algo que pode colocar um teto na sua criação de jogo. Faz lembrar o vilão do filme ‘O Fugitivo’.

Na defesa, Hayes dificilmente será um candidato a DPOY, mas tem uma boa postura a defender no 1v1 e é um defensor colectivo bastante activo e inteligente. É uma opção a considerar para quem precisa de um possível lead ballhandler.

O Canivete israelita

Deni Avdija é um extremo combo de 206 cm, que fez toda a sua carreira no colosso Maccabi Tel Aviv. O percurso no basquetebol europeu, a capacidade de passe e o físico faz com que alguns o tenham comparado a Luka Doncic. Essas pessoas são loucas!

Deni é um bom prospect: um atleta vertical mais do que competente, com alguma capacidade para criar ataque a partir do drible, mas é mais um ballhandler secundário que aproveita desequilíbrios criados por outros, do que a supernova ofensiva que Doncic é.

Na defesa, Deni mostra-se ‘certinho’ a defender individualmente, concentrado nas rotações, e um protector de cesto secundário disciplinado.

Uma grande questão com o israelita é o lançamento: A mecânica no jumper precisa de algumas afinações, e as percentagens da linha de lance livre lançam dúvidas preocupantes sobre o seu sucesso como atirador.

Com Avdija, (quase) todo o seu jogo é permeado por uma enorme polivalência, mas não existe uma habilidade de elite. Se o tiro começar a cair, talvez justifique uma escolha no top-5.

A busca pelo wing perfeito

Um dos arquétipos de jogador mais procurado na NBA são os extremos 3&D: Stoppers defensivos que oferecem valor ofensivo num papel reduzido ao usar a gravidade do seu tiro exterior para espaçar o campo no ataque. Pensem em Robert Covington, Trevor Ariza (quando era bom), ou Mikal Bridges.

Neste Draft, Devin Vassell é o menino bonito nos nerds do Draft Twitter (Olá!) e o ‘prime’ 3&D wing. Um extremo de 201 cm, Vassell não é um lockdown defender, precisando ainda de meter massa nos longos braços e no tronco, mas é um defensor colectivo inacreditável, que é um comunicador nato, faz rotações absurdas e ataca linhas de passe com uma agressividade ponderada.

 

Em Florida State, Vassell foi maioritariamente um atirador estacionário, tendo brilhado nesse papel (41.5% 3PT), mas existem flashes que indicam que Vassell pode fazer mais com a bola, e criar um pouco de ataque a atacar closeouts. É uma fit interessante em quase todas as equipas da lottery.

Isaac Okoro não é o savant da defesa colectiva que Vassell é, mas é um defensor individual bem mais preparado para as agruras das NBA. Um atleta desenvolvido (198 cm, 102 kg, 204.5 cm de envergadura), o extremo de Auburn pode vir a ser atirado a alguns dos melhores extremos da liga desde o primeiro dia. No ataque, Okoro tem um tiro suspeito, a precisar de clara evolução, apesar de não ser um Bem Simmons. Porém, é alguém que vai poder jogar com bola na mão: É um penetrador potente, que usa o físico para criar espaço e finalizar, e um distribuidor evoluído, que tem a visão de jogo e técnica de passe para encontrar colegas abertos.

Outro wing a ter em conta é Josh Green. O australiano de Arizona tem um físico bem interessante, e uma excelente técnica a defender no 1v1 (postura correcta, reflexos rapidíssimos, movimentação lateral, força de tronco para não ser desalojado). No ataque, Green é um jogador mais ‘básico’ que os anteriores: É um bom passador, mas o seu papel ofensivo será, maioritariamente, correr em transição, atirar triplos catch&shoot e cortar para o cesto.

O unicórnio sérvio

Ver Aleksej Pokuševski jogar é equiparável a ouvir a música ‘Feel Good Hit of the Summer’, dos Queen of the Stone Ages. A jogar pelo Olympiacos B, ‘Poku’ é um autêntico base metido no corpo de um poste subnutrido (213 cm, 91 kg), com uma capacidade de drible, visão de jogo, e versatilidade de lançamento absurdos. Na defesa, é um playmaker feroz, que ataca linhas de passe e oferece algo como protector de cesto secundário.

 

Pokuševski tem um físico subdesenvolvido, que não vai aguentar o jogo na área pintada, e tem alguns impulsos muito sui generis (disciplina defensiva vai e volta, tenta jogadas YOLO no ataque, tem os piores closeouts dos mundo). Coisas preocupantes, mas que não me demoveriam de arriscar fazer a chamada.

É um projecto a longo prazo, que nas mãos de um franchise sólido, pode dar muuuuitos frutos. Terminando com outra referência musical, Pokuševski é o Chico da Tina do Draft: Único, talentoso, mas que não vai ser do gosto de todos, embora devesse.

2 Fast 2 Furious

Dois jogadores que precisam de mais publicidade são os bases RJ Hampton (NZ Breakers) e, especialmente, Kira Lewis Jr. (Alabama).

Hampton é o protótipo do atleta potente (195 cm, 84 kg), que corre e salta como quase ninguém na Draft Class, mas que precisa de pensar o jogo muito melhor.

Lewis Jr. é um base que é dos melhores criadores de vantagens no 1v1. Com um drible confiante, um tiro mais do que capaz, e um poder de aceleração ridículo, Lewis Jr. pode vir a ser um desequilibrador nato na liga. A visão de jogo não está ao nível de um LaMelo, mas a execução do passe em si, muitas vezes a 200 km/h, é impressionante. Basta ver:

 

Kira é um pouco diminuto (191 cm, 75kg), e isso vai prejudicá-lo a finalizar no garrafão e em alguns matchups defensivos, mas não deixa de ser uma aposta muito viável no top-10.

Os snipers de serviço

Para as equipas que precisão de atiradores (76ers?), há muito por onde escolher:

O mais badalado parece ser Aaron Nesmith (Vanderbilt), um wing de 196 cm que teve uma época verdadeiramente nuclear de 3PT (52.2%), mas que é a definição de one-skill player.

Saddiq Bey (Villanova) é outra opção para quem precisa de lançamento exterior, e alguém que oferece um pouco mais de jogo a partir do próprio drible que Nesmith. Porém, Bey não é o defesa que alguns creem ser.

Por último, temos Desmond Bane, que é, para mim, a melhor opção dos 3. Bane é um senior de TCU, que atira tanto a partir do drible como em catch&shoot, e que possui capacidade para ter a bola na mão e passar com inteligência. Na defesa, vai ser um elemento que não compromete.

A juntar a todos os que falei acima, há alguns outros freshman aliciantes (Tyrese Maxey, Cole Anthony, Patrick Williams, Nico Mannion) e alguns jogadores mais velhos que podem ter um papel muito útil desde cedo (Grant Riller, Tyler Bey, Killian Tillie, Xavier Tillman Sr.). Há, inclusive, algumas possíveis opções para draft-and-stash (Yam Madar, Arturs Kurucs).

No geral, o Draft do amaldiçoado ano de 2020 acaba por ser uma grupeta bem profunda, de onde pode vir a sair mais valor do que o expectável. Agora está na altura de provarem o que valem. A melhor da sorte para a miudagem!

por NUNO SOARES

 

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