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Nos bastidores do Europeu: A espuma das noites

Podia escrever sobre algo tão grandioso como o hino português cantado a quase cinco mil vozes e podia escrever sobre algo tão curioso como o facto do técnico que geria os marcadores gigantes do pavilhão ver filmes no seu portátil durante todo o tempo em que ali esteve, completamente alheado do momento histórico que acontecia à sua frente.

Uma semana depois do título europeu conquistado em Matosinhos, eis a crónica final sobre o que se passou longe das luzes da ribalta. E sim, eu sei que esta crónica podia ter outro título mais apelativo. “Memórias para a eternidade” ou “Um título para a história” talvez fossem mais apropriados e gerassem mais “click bait”. Mas, quando decidi trazer-vos alguns episódios dos bastidores do Campeonato da Europa, já tinha algumas coisas em mente. Afinal de contas, este não era o meu primeiro Europeu jovem em Matosinhos. No entanto, este Europeu marcou-me de uma forma diferente e é por isso que, em vez de um título mais sensacionalista, optei por uma referência ao livro «A espuma dos dias», de Boris Vian. Porquê? Porque esta última crónica é sobre a espuma que resta da onda de emoções que vivemos nestas duas semanas, mas também porque, tal como na obra de Vian, esta crónica serve para reflectir sobre a fragilidade do ser humano.

Não, não vou escrever sobre o primeiro título da história do basquetebol português, nem do percurso invicto que a equipa das quinas trilhou desde o arranque da prova até ao seu ocaso. Não, não vou escrever sobre a presença de dois portugueses no cinco ideal da competição, nem da eleição de um deles como MVP do Campeonato da Europa. Isso esteve à vista de todos. Já muita tinta foi usada para congratular todos os envolvidos neste sucesso ímpar da modalidade.

Podia escrever sobre o momento que se seguiu a cada vitória de Portugal: uma cantoria a 12 vozes, nas bicicletas estáticas onde os jogadores lusos cuidavam dos músculos após mais 40 minutos a defender a nossa bandeira. Podia escrever sobre o conteúdo das mensagens que os elementos da organização escreveram nas paredes e espelhos do balneário da seleção nacional. Podia escrever sobre algo tão grandioso como o hino português cantado a quase cinco mil vozes e podia escrever sobre algo tão curioso como o facto do técnico que geria os marcadores gigantes do pavilhão ver filmes no seu portátil durante todo o tempo em que ali esteve, completamente alheado do momento histórico que acontecia à sua frente. E podia escrever sobre a entrevista concedida pelo treinador de Neemias Queta na Universidade de Utah State ou sobre o acidente de carro – sem prejuízos! – que tive num dos regressos tardios ao hotel. Podia escrever sobre tudo isto, mas não o vou fazer.

Devia dedicar umas linhas ao momento em que o adjunto luso João Costeira ficou de lágrimas nos olhos, após a buzina final do último jogo. Devia perder algum tempo a descrever as “escaladas” emocionantes do base Rafael Lisboa pelas bancadas, no fim dos jogos, para abraçar o pai e os irmãos. E devia, sobretudo, fazer uma homenagem aos milhares de portugueses, amantes do jogo, que todos os dias encheram o CDC de Matosinhos para empurrar a seleção nacional aos triunfos e que ficavam no pavilhão durante mais de uma hora após cada jogo, para pedir autógrafos, tirar fotos ou apenas dar uma palmada nas costas dos nossos heróis. Devia escrever sobre tudo isto, mas também não é isso que motiva esta derradeira crónica.

Esta crónica é sobre dois momentos vividos por dois homens que têm em comum o amor pelo basquetebol: Neemias Queta e Kauan Valente.

Na meia-final contra a Rússia, um ressalto deixou Neemias caído no soalho. A imagem do gigante de 2,11 metros agarrado ao joelho esquerdo deixou os mais de quatro mil adeptos nas bancadas em sobressalto. Estávamos ainda no terceiro quarto da partida que decidia a subida à Divisão A e a principal referência lusa saía lesionada. Quando o poste voltou a entrar no pavilhão, amparado e com gelo no joelho, percebeu-se que não voltaria a jogar nesse jogo. Entre os aplausos para saudar o regresso ao banco de suplentes e a suspeita de que a equipa poderia ressentir-se da ausência da estrela da companhia, o clima era de tensão. E essa tensão só passou com o soar da última buzina e a confirmação de que, mesmo sem ser favorito e mesmo perdendo o seu melhor jogador, Portugal tinha acabado de fazer história. A subida à Divisão A era festejada por todos com muita euforia, entre adeptos, elementos da organização, voluntários, dirigentes, treinadores e atletas.

Mas o Neemias estava diferente. Festejou, é certo. Abraçou e foi abraçado por todos, sim. No entanto, no meio de toda aquela alegria, notei um esgar de preocupação e – julgo – vi uma lágrima. Senti-o a sofrer por dentro, por muito que fizesse questão de abrir aquele sorriso contagiante sempre que um colega de equipa se aproximava. Acredito que, naquele momento, um turbilhão de sentimentos o invadiram, por não saber ao certo a gravidade da sua lesão. Quem o acompanhou durante a temporada passada, sabe o quanto esteve perto de chegar à NBA, ao sonho de ser o primeiro português de sempre a juntar-se ao lote restrito de atletas extraordinários que actuam na liga norte-americana e, dessa forma, proporcionar aos que mais ama o melhor que puder. Naquele momento, acredito que tudo o que o Neemias viveu até ali – desde as longas caminhadas para os treinos do Barreirense, passado pela época incrível que viveu em Utah State até à montanha-russa que foi o processo de draft da NBA – lhe tenha passado pela memória.

Na final diante da República Checa, já com o enorme Neemias à civil no banco de suplentes, o pequeno Kauan sofreu muito nas bancadas. Pela vitória de Portugal, claro. Mas não só. Em todos os jogos da equipa das quinas, o Kauan foi mais um adepto vestido a rigor com o equipamento da seleção nacional, mas naquela final vi um Kauan diferente. Mais ansioso. No fim do encontro, a festa voltou a rebentar em Matosinhos com o primeiro título da história do basquetebol português. À semelhança do dia anterior, mas de forma ainda mais vincada, a euforia tomou conta dos milhares de portugueses ali presentes, desta vez regada com algum champagne e muitas lágrimas. No entanto, no meio de toda aquela alegria, vi umas lágrimas que destoavam das restantes. O Kauan chorava compulsivamente e acredito que, tal como o Neemias na véspera, estava assoberbado por uma emoção incontrolável. Afinal de contas, o pequeno Kauan luta contra um cancro que o impede de jogar o desporto que ama: basquetebol.

Uma semana depois, as lágrimas do Neemias e sobretudo do Kauan são a espuma das minhas noites. Mais do que títulos europeus e subidas à Divisão A, o que quero é vitórias de ambos.

P.S.: Apoiem a luta do Kauan. Sigam-no no Facebook, conheçam a sua história e não deixem de ajudar.

P.P.S.: Porque é a última crónica e porque não podia deixar de o fazer, aqui fica a minha homenagem à equipa fabulosa que trabalhou comigo directamente neste Europeu. O João, o André e o Guilherme facilitaram, e muito, o meu trabalho. Sem eles, não teria, por exemplo, reparado nas dezenas de pormenores que deram vida a estas crónicas. E ficaram de fora da foto tirada a toda a equipa que trabalhou nos bastidores deste Europeu… porque estavam a trabalhar. Foi por isso que fiz questão de lhes tirar uma fotografia, já com o pavilhão vazio. Obrigado pela competência, dedicação e partilha. Vocês foram os meus MVPs!