Os Nuggets de 1990-91: a avalanche de pontos que (não) escondia um buraco negro na defesa

por abr 10, 2023José Volta e Pinto

O ano é 1991, o mês é Abril. O príncipe herdeiro da NBA é Michael Jordan, está a poucas semanas de ser coroado rei com a conquista do primeiro título. Na fase regular, 61-21, apenas atrás dos Portland Trail Blazers (63-19). No fundo da tabela, com o registo de 20-62, encontramos um franchise que em 2023, 32 anos depois, entra nos playoffs com o melhor registo da Conferência Oeste, liderado por um sérvio que pode ganhar o terceiro MVP consecutivo. Esta é a história do “mundo louco” dos Nuggets de 1990-91.

Os Denver Nuggets foram uma das equipas que entraram na NBA aquando da fusão com a American Basketball Association (ABA), uma liga onde o franchise atingira os playoffs em todas as temporadas. Apesar disso, as chegadas à fase a doer apenas valeram uma ida às Finais da liga, precisamente na temporada de encerramento.

A primeira época após a fusão com a NBA, em 1975-76, acabou por ser feliz. Na altura, fruto da rivalidade entre as duas ligas, havia muitas interrogações em relação ao talento da ABA. Os meios de comunicação e, acima de tudo, os jogadores, treinadores e executivos da NBA tinham reservas quanto à capacidade que os jogadores da ABA teriam para se adaptarem a um basquetebol com mais de régua e esquadro e menos de jazz e livre-arbítrio dentro do campo.

Os Nuggets puseram tudo em pratos limpos: apuraram-se para os playoffs com 50-32, o melhor registo da Divisão Centro-Oeste, liderados por três All-Stars: o base-maravilha David “Skywalker” Thompson, Dan Issel e Bobby Jones.

A equipa do Colorado manteve a presença na postseason nas duas épocas seguintes, e durante a era de Alex English, na década de 80, atingiu a fase a eliminar nove épocas consecutivas – até 1989-90, a última temporada de English na equipa, quando garantiu por pouco o oitavo lugar.

Sangue novo para a nova década

Para a nova época, há mudanças ao leme do franchise, com a entrada de um novo GM, Bernie Bickerstaff (pai do J.B. Bickerstaff, actual treinador dos Cavs), que nas cinco épocas anteriores tinha treinado os Seattle Supersonics. Bickerstaff encontrou em Denver a equipa mais velha da liga, com muitos anos de idas aos playoffs, mas pouco sucesso para lá desse feito.

Sem grandes expectativas no horizonte, optou por deitar abaixo o plantel e reconstruir. Começou pelas pedras basilares da equipa: os Nuggets não renovaram contrato com Alex English, que assinou pelos Dallas Mavericks, e enviaram também para Dallas o base Fat Lever, em troca de duas escolhas de primeira ronda.

Bickerstaff refrescou também o comando técnico, com a saída de Doug Moe e a chegada de Paul Westhead, treinador campeão com os Los Angeles Lakers em 1980. Chegou a Denver para arquitectar uma das temporadas mais desconcertantes na história da NBA.

Coloquemos os pontos nos i’s: a equipa não era boa. Era um ano de reconstrução, assente em procurar terreno para uma nova era dos Nuggets. No draft, Denver fez trocas para chegar à terceira posição, onde escolheu o base Mahmoud Abdul-Rauf. No defeso, a contratação de maior relevo foi a de Orlando Woolridge, que com 31 já se encontrava no ocaso da carreira (ou assim parecia).

O Sistema louco

Paul Westhead, regressado à NBA depois de algumas épocas no basquetebol universitário, tinha uma ideia muito concreta do que queria para a sua equipa. O técnico quis implementar nos Nuggets a filosofia de run-and-gun que desenhou em Loyola Marymount – uma ideia de jogo a que chamava The System (O Sistema) e que levou os Lions à Elite 8 da NCAA, em 1990, destruindo pelo caminho os Michigan Wolverines, campeões em título.

A estratégia de Westhead consistia em ter as equipas a avançar a bola no campo o mais depressa possível e procurar o primeiro lançamento disponível. Idealmente, em menos de sete segundos (para a altura, algo completamente fora do normal). Defensivamente, as suas equipas pressionavam constantemente campo inteiro e estavam dispostas a permitir lançamentos fáceis de forma a manter o ritmo de jogo elevado. Antes do começo da temporada, Westhead prometeu um ataque run-and-gun “como nunca antes visto”.

A adaptação d’O Sistema à NBA não resultou. Ou melhor, resultou em parte: a época foi algo “como nunca antes visto”, efectivamente. Os Nuggets terminaram a época de 1990-91 com o melhor ataque da liga, no que diz respeito a pontos marcados: 119,9 pontos por jogo. Mas de pouco ou nada valeu, visto que concediam quase 131 pontos por jogo (130,8). Não é um erro. Eram cento e trinta e um pontos sofridos por jogo.

Os Denver Nuggets não eram um franchise estranho a feitos ofensivos na NBA, depois dos anos dourados de Alex English e Kiki Vandeweghe, e de Alex English com Fat Lever – bom, de Alex English com mais alguém. Em 1981-82, marcaram mais de 100 pontos em todos os jogos – no total estiveram 136 jogos consecutivos na casa das centenas de pontos, atingindo pelo meio um recorde de 184 pontos num jogo que se mantém até hoje. Não faltam recordes de pontos a essa era de Denver.

Os Nuggets de Paul Westhead, no entanto, eram outra história, com uma enxurrada ofensiva que raramente era suficiente para tapar um buraco negro na defesa. Passaram mesmo a ser conhecidos como os Enver Nuggets, por não terem D(efesa). (Não sei se é a primeira vez que se utilizou essa piada, mas vou acreditar que sim.)

Pontos, pontos, pontos

Um dos jogos que melhor define este “mundo louco” dos Denver Nuggets de Westhead, como descreveu em 1992 David Aldridge, foi o sexto da temporada – e a sexta derrota. No Arizona, os Nuggets perderam com os Phoenix Suns por 173-143, tendo marcado 107 pontos (repito, cento e sete) na primeira parte, um recorde que se mantém até hoje e que, na altura, bateu um máximo estabelecido apenas três dias antes pelos próprios Nuggets, que tinham marcado 90 pontos na primeira parte contra os San Antonio Spurs.

A marca dos Suns não foi um mero acaso. Ainda na pré-época, um mês antes, a equipa tinha marcado 186 pontos contra a efesa (eheh) de Denver, numa vitória por 186-123.

O projecto d’O Sistema iniciou a todo o gás a temporada: o jogo 1 da temporada, com os Golden State Warriors de Run TMC (Tim Hardaway, Mitch Richmond e Chris Mullin), uma equipa que por si já era um festival de marcação de pontos, teve um resultado final de 162-158. Até hoje, continua a ser o jogo com mais pontos em tempo regulamentar.

Consultando o Basketball Reference, os três jogos com mais pontos acumulados entre as duas equipas na primeira parte pertencem à semana de abertura desta época que vos trago. Precisamente os três jogos que referi: Nuggets frente aos Warriors, aos Spurs e aos Suns.

Nos 82 jogos da fase regular, os Nuggets só sofreram menos de 110 pontos quatro vezes e nunca sofreram menos de 100 (104 foi o pior registo). Ofensivamente, só marcaram menos de 100 pontos em cinco ocasiões. A avalanche de pontos não era sinónimo de eficiência, como seria de esperar: Denver era quem mais pontos marcava, mas o rating ofensivo foi apenas 21º em 27 equipas da liga.

Em termos individuais, quem mais beneficiou com o estilo de jogo descontrolado foi Michael Adams, um base pequeno e rápido com um gesto de lançamento peculiar. Escolhido na terceira ronda do draft de 1985 pelos Kings, teve muito pouco espaço na época de rookie, acabando por ter alguma utilização no seu segundo ano, nos Washington Bullets. Chegou aos Nuggets em 1987 e conquistou o estatuto de maestro de um ataque de Doug Moe que já era virado para um ritmo alto com muitos pontos.

Com Paul Westhead, confirma o estatuto de primeiro volume shooter de três pontos na NBA (quase nove tentativas por jogo) e atinge números estratosféricos: 26,5 pontos e 10,5 assistências por jogo. Fica em sexto na lista de melhores marcadores e em terceiro nas assistências. Mais: é apenas um de sete jogadores na história a fazer médias de temporada acima de 25 pontos e 10 assistências por jogo – os outros são Oscar Robertson, Tiny Archibald, James Harden, LeBron James e Trae Young. Bela companhia. (Isto a lançar menos de 40% de campo e abaixo de 30% de triplo. Pois.)

Orlando Woolridge é outro com uma temporada fora do normal. Chegou aos Nuggets depois de duas épocas nos Lakers, com 9,7 e 12,7 pontos por jogo. Em Denver, disparou para os 25,1 pontos por jogo, a melhor marca da carreira. No ano seguinte, em Detroit, voltou à terra.

Os anos seguintes

A aventura no mundo dos Enver Nuggets resultou numa escolha na quarta posição do draft de 1991. Chegou Dikembe Mutombo para inaugurar e ancorar a defesa, mas de pouco valeu. Mutombo teve uma excelente campanha de rookie, mas sentiu algumas dificuldades naturais durante a segunda metade da temporada. Com um estilo algo mais sóbrio, mas ainda assim caótico, os Nuggets ficaram 24-58 na segunda e última época de Westhead no comando.

Entrou Dan Issel para o seu lugar, regressando a um franchise que representou dez anos como jogador. A equipa jovem deu sinais de evolução, empurrados por Mutombo e pelo Most Improved Player dessa temporada, Mahmoud Abdul-Rauf – que entrou na NBA Chris Jackson e só nesta temporada mudou de nome.

O progresso continuou em 1993-94: o grupo regressou aos playoffs e fez história, tornando-se no primeiro oitavo classificado a passar da primeira ronda, ao eliminarem os Seattle Supersonics. Na ronda seguinte levaram ao Jogo 7 uma série contra os Utah Jazz em que começaram a perder 3-0.

Seja pelos anos dourados de Alex English, pela experiência laboratorial desastrosa de Paul Westhead ou pela era de Carmelo Anthony e companhia, a história dos Denver Nuggets tem estado intimamente ligada ao lado ofensivo do basquetebol, muitas vezes descurando a outra metade. Talvez por isso o livro do franchise tenha muitas páginas de recordes, mas um capítulo em branco sobre títulos. Não deixa de ser curioso que a nova era dos Nuggets tenha como peça central um génio incomparável desse lado do campo. Falta saber se a história se repete ou se Nikola Jokić a consegue escrever nos seus próprios termos.

por JOSÉ VOLTA E PINTO [@zevolta97]

José Volta e Pinto

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