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Rui no país do körfubolta: Como (raio) vim cá parar?

No início de 2019 decidi que iria finalmente viver uma experiência fora de portas. Desde há muitos anos era algo que tinha em mente, algo que prometia a mim mesmo, mas que ia adiando… Felizmente, ganhei força e foi assim que decidi sair da zona de conforto.

Bem-vindos a este espaço, um local de partilha, nesta ilha gelada lá fora, mas bem quentinha dentro de portas.

Fez agora um mês que cheguei à Islândia. Vim para me dedicar profissionalmente à nossa querida borracha laranja, enquanto treinador dum clube chamado Selfoss Karfa.

Mas esperem lá, antes de aprofundar mais o tema quero aproveitar por vos pedir desculpa de antemão. Ainda só passou um mês e já me começo a sentir um emigrante. Com tudo de bom e de mau que isso acarreta. Isto de passar o dia a falar (e a pensar) numa outra língua tem que se lhe diga. De vez em quando, sinto que o bom português já me começa a fugir. Assim sendo, perdoem-me os eventuais erros (e sintam-se à vontade para me corrigir)!

Ao tomarem conhecimento sobre esta minha novidade, muitos dos meus amigos me perguntaram aquilo que, muito provavelmente, vocês já terão pensado também “como raio foste tu parar à Islândia?”. Posso dizer-vos que a vida nem sempre nos leva exactamente pelo caminho que imaginamos, mas acredito que na maioria das vezes nos leva por onde precisamos de ir.

No início de 2019 decidi que iria finalmente viver uma experiência fora de portas. Desde há muitos anos era algo que tinha em mente, algo que prometia a mim mesmo, mas que ia adiando… (Quem nunca?) Felizmente, ganhei força – obrigado aos que amo! – e foi assim que decidi sair da zona de conforto para procurar uma oportunidade fora de Portugal, como treinador de basquetebol.

Naturalmente, quando pensamos em sair de Portugal para emigrar por causa do basquetebol, há alguns países que saltam à vista. Sérvia e Lituânia são um bom exemplo, mas EUA e Espanha estão claramente no topo da lista. Pelo menos na minha. Ainda para mais tendo em conta factores como a nossa localização, a língua ou o nível de vida. Nessa linha de pensamento, apontei direcções para essas duas potências do basquetebol mundial. A principal ideia era poder viver uma realidade profissional no meio do basquetebol (apesar de amadora na sua essência, consideremos para este efeito que a NCAA é claramente profissional). Estar numa realidade na qual pudesse vivenciar um basquetebol diferente (e mais evoluído) do (que o) nosso. De preferência, estando inserido numa equipa técnica profissional em que pudesse aprender bastante. Comecei então a usar a minha rede de contactos para encontrar uma oportunidade num desses países na época 2019-2020.

Entretanto, em meados de abril, apareceu-me através das redes sociais esta oferta de emprego na Islândia. O meu actual clube estava à procura dum treinador adjunto para a equipa sénior masculina. Acendeu-se uma luzinha na minha cabeça e, por descargo de consciência, mandei uma mensagem ao Chris (o treinador principal com quem estou agora a trabalhar) em que lhe perguntei algo do género: “Vi que estão à procura dum treinador adjunto. Talvez tenha interesse. Achas que tenho o perfil indicado? Fará sentido candidatar-me?”. Ao que ele me respondeu de imediato: “Sim. Serias perfeito. Por favor, manda o teu currículo para a direcção”.

(Nota: o Chris foi um dos muitos contactos que fiz ao longo destes anos de basquetebol. Conheci-o no verão passado, num campus, como conheci muitos outros treinadores de quem também fiquei amigo. Demo-nos realmente bem, mas nunca me passou pela cabeça que pudéssemos vir a trabalhar em conjunto um ano mais tarde.)

Confesso que inicialmente não pensei seriamente no assunto. Foi mais numa ideia de ver no que dava e ter mais uma opção em carteira. A verdade é que a Islândia era (e é) um país que me fascinava. A ideia de o conhecer enquanto trabalhava lá agradou-me, sobretudo por razões económicas. Faltava actualizar o currículo em inglês e enviar. Feito isso, não houve volta a dar.

Assim começou o processo de selecção. Ao fim de dois dias a direcção já tinha recebido mais de 20 currículos – confesso-vos que depois de cá estar e ver alguns dos currículos de outros candidatos fiquei impressionado. Entretanto, entre e-mails, conversas, entrevistas (videoconferência) e negociação do contrato passou cerca de um mês. Foi o tempo necessário para amadurecer a ideia, estudar o país e conversar seriamente com os que me são mais queridos. Felizmente, reuniram-se todas as condições necessárias para poder dizer que sim… e, passados três meses, aqui estou eu!

P.S.: Como podem ter imaginado, körfubolta significa basquetebol em islandês. Prometo ensinar-vos mais umas palavrinhas nas próximas rubricas. Acreditem que depois de conhecer esta língua não volto a dizer a ninguém que o português é difícil!

Vemo-nos (salvo seja) em breve, com a promessa de mais detalhes sobre as minhas funções e o meu dia-a-dia aqui.

por RUI COSTA

 

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