Artigos

Rui no país do körfubolta: Onde estudar basquetebol é possível

O treino individual é uma área que me encanta e na qual invisto também muitas horas. Felizmente, posso dizer que temos alguns atletas bastante trabalhadores e verdadeiramente focados em evoluir que, regularmente, solicitam a minha ajuda para treinos de desenvolvimento individual. A maioria destes treinos são a horas impróprias para preguiçosos, em horários “fortes” em que o pessoal “está bem é na caminha”.

Sælir.

Bem vindos a 2020 e “gleðilegt nýtt ár”, que é como quem diz, feliz ano novo.

Já lá vai um tempinho desde a minha anterior crónica, mas a verdade é que esta experiência fora de portas tem passado, salvo seja, a correr. Têm sido muitos quilómetros e horas percorridos, seja na Islândia, seja nas viagens a Portugal.

Da última vez que aqui vos escrevi prometi contar-vos mais sobre a borracha laranja aqui na Islândia. Pois bem, vamos ao que interessa.

No meu contrato vem definidas três grandes responsabilidades aqui em Selfoss:
• Treinador adjunto dos seniores masculinos (Selfoss Karfa) na 1ª Divisão Masculina – o equivalente à Proliga em Portugal.
• Treinador da Academia Fsu
• Treinador dos Sub18 Fsu

Nos seniores, devido à estreita ligação com a Academia, temos uma equipa semi-profissional e bastante jovem, cujo principal objetivo é lançar atletas para outros patamares e, simultaneamente, conseguirmos ser competitivos na nossa liga – objetivo competitivo: apurar para os playoffs. Quando falo de lançar os nossos atletas para voos mais altos, falo de os ver a competir noutras ligas profissionais por essa Europa fora e/ou encaminhá-los a nível académico-desportivo nos EUA – por exemplo, um dos nossos atletas já se comprometeu com uma universidade da NCAA2 a partir da próxima temporada.

Enquanto treinador da Academia tenho a responsabilidade de orientar, juntamente com o Chris Caird, quatro treinos por semana de 55 minutos cada um. O principal objetivo destes treinos é o desenvolvimento individual dos atletas. A época da Academia, tal como as restantes disciplinas, é dividida em dois semestres. Definimos um plano de conteúdos e, semana após semana, vamos trabalhando diferentes skills para ajudar a evolução dos nossos atletas, sendo que damos particular foco ao trabalho de lançamento.

Perguntam vocês: “Que conceito é este o da Academia”? Basicamente, aqui na Islândia, algumas escolas como a Fsu estabelecem parcerias com os clubes locais para que os seus alunos possam estudar um desporto, da mesma maneira que podem estudar Inglês, matemática, economia ou outra qualquer disciplina. Assim, a partir dos 16 anos, os basquetebolistas federados da nossa região tendem a procurar estudar na nossa escola de forma a poderem “estudar” basquetebol na Academia. Isso dá-lhes a possibilidade de fazer quatro treinos extra semanais integrados no horário escolar. Simultaneamente, dá-lhes a possibilidade de jogar nas nossas equipas de sub18 e/ou sub20. É assim que na nossa equipa senior do Selfoss Karfa temos quatro atletas que fazem parte da Academia e que também competem pela equipa de sub20 – um islandês, dois ingleses e um croata.

Como treinador de sub18, o meu papel é bem diferente daquilo a que alguma vez estive habituado. Da equipa de sub18 fazem parte nove atletas da Academia, que representam equipas seniores de três clubes diferentes. Porquê? Porque com o habitual “estreitar da pirâmide” e a redução do número de jogadores nos escalões mais velhos, estes clubes não teriam condições, por si só, de competir no escalão sub18. A solução? Juntarem-se com outros clubes da região em situação semelhante. Isto significa que os jogos de sub18 são forçosa e fundamentalmente um espaço de treino e desenvolvimento individual de jogadores em contexto competitivo. Esta equipa participa na 1.ª divisão do campeonato nacional de sub18, mas na verdade não tem nenhum treino de equipa regular. Embora os nove atletas que a formam treinem juntos quatro vezes por semana, em nenhum desses treinos o foco é o desenvolvimento colectivo da equipa de sub18, mas sim o seu desenvolvimento individual enquanto atletas.

Para além destes quatro treinos em horário escolar, cada um deles treina quatro vezes por semana com a sua equipa senior. O que significa que estes atletas treinam uma média de oito vezes e jogam duas ou três partidas por semana (alguns competem ainda nas equipas sub20 ou senior B dos seus clubes). Excepcionalmente, conseguimos agendar um treino extraordinário para trabalhar questões colectivas (lembrem-se que temos atletas de três clubes diferentes que competem em três divisões diferentes e o treinador representa um quarto clube diferente – fica bem difícil encontrar um dia/espaço de treino em que todos estejamos disponíveis).

Para além destas responsabilidades contratuais, há muitas outras coisas que costumo fazer ao longo da semana de trabalho. O treino individual é uma área que me encanta e na qual invisto também muitas horas. Felizmente, posso dizer que temos alguns atletas bastante trabalhadores e verdadeiramente focados em evoluir que, regularmente, solicitam a minha ajuda para treinos de desenvolvimento individual. A maioria destes treinos são a horas impróprias para preguiçosos, em horários “fortes” em que o pessoal “está bem é na caminha”.

Já com o decorrer da época devido a um imprevisto, foi necessário ajudar o clube noutras pequenas funções: dou um treino semanal aos sub8, bem como ajudo na orientação dos jovens treinadores (muitos deles são meus atletas nos seniores/academia) e desempenho ainda o papel de adjunto também nos sub20.

Por último, mas não menos importante, e tal como muitos outros treinadores, grande parte das minhas horas de trabalho são dedicadas à análise e preparação de vídeo. Filmamos e analisamos todos os jogos de seniores, assim como também procuramos fazê-lo com os jogos de sub20 e sub18. Semanalmente, temos duas sessões de vídeo colectivas – no primeiro treino pós-jogo e no último treino pré-jogo. Como devem imaginar, na primeira fazemos uma análise daquela que foi a nossa prestação no jogo da semana anterior e na segunda apresentamos o scouting (colectivo e individual) da equipa adversária que teremos pela frente no dia seguinte.

Apesar de tanto trabalho, devido ao rigor do Inverno (aqui contam-se invernos em vez de anos de vida!), o campeonato parou quase um mês o que me permitiu ir a casa, passar o Natal, rever família e amigos e recuperar energias para uma segunda metade da época que se avizinha bem exigente. Em breve conto-vos como estão as correr as competições.

Bless, bless!

por RUI COSTA

1 Response