Artigos

Bases, de Dados Sociais

Quando Sixers e Nets se defrontaram no final de Outubro, naquele que foi o segundo jogo de ambas as equipas a contar para a fase regular, os adeptos em Philadelphia que compraram bilhete de época certamente não contavam ver Nic Claxton e Tyrese Maxey no cinco inicial, em detrimento de ter o seu dinheiro investido num showdown entre dois dos melhores bases da actualidade: Kyrie Irving e Ben Simmons. Foi o culminar (para já) de duas novelas, milhares de palavras, horas de podcasts, e cujo fim não parece estar perto de acontecer nem fácil de antecipar. Como chegámos até aqui? E o que dizem ambas as situações sobre os jogadores, saúde mental, a NBA, e a sociedade em que a liga está inserida?

Para chegarmos ao objectivo a que me propus quando decidi escrever este artigo, que é tentar perceber, dado o que sabemos e temos hoje em cima da mesa, o que se vai passar na carreira de ambos os bases num futuro próximo, é preciso ter em mente como tudo começou – e como se comportaram os diferentes agentes ao longo destes (quase sempre) tristes episódios. A História, no fundo, trata de conhecer as estórias do passado para sabermos como chegámos aqui, e tentarmos perceber para onde vamos. E o que fica claro quando olho para trás, é que ambas as situações não podiam ser mais diferentes, não obstante os jogadores serem muitas vezes colocados no mesmo tipo de narrativas.

O Artista, incompreendido ou incompreensível?

Por onde começar, com Kyrie Irving? O prefácio pode muito bem ser um daqueles episódios que protagonizava, e que despertavam em nós um “Oh, lá está o Kyrie, que tonto!”. O terraplanismo. Chegar ao treino na urgência de perguntar ao Brad Stevens o que significava o Governo para ele. A meditação, que o ajudou a aproximar-se de figuras históricas, Nikola Tesla em particular. Enfim, não são todos os atletas que conseguem compilar pérolas suficientes antes de se reformarem que justifiquem uma lista de Top 25 de coisas insanas que disseram.

E foi esta personagem que, em Fevereiro de 2020, foi eleita pelos seus pares como um dos vice-presidentes da NBPA – a associação de jogadores da NBA, na prática um sindicato, que com serviços de consultoria fiscal, direito, entre outros, zela pelo interesse dos jogadores em negociações que vão desde a divisão de receitas da liga, estrutura dos contratos, planos de pensões e muito mais. E aqui vale a pena parar para perceber que Kyrie é extremamente admirado pelos seus pares, e com boas razões para isso: são pessoas que dedicaram a vida quase toda a um desporto para o qual aquele tipo tem simplesmente um dom. O que Irving consegue fazer com a bola nas mãos e à volta do cesto, acabadinho de sair da cama e sem lavar a cara nem dentes, 99.9% dos melhores jogadores de basquetebol da actualidade, os que habitam o ecossistema da NBA, não ousam sequer tentar fazer a carreira inteira. Andre Iguodala (por sinal, o cabecilha dos 6 vice-presidentes da NBPA), considerou não só um escândalo Kyrie não ter sido eleito como um dos 75 melhores da história, como disse que era top-20… pelo menos. É este o nível de respeito.

Depois desta eleição, Kyrie lesiona-se no ombro, o que o afasta do resto da época, e Rudy Gobert testa positivo à COVID-19, interrompendo o que restava da fase regular. A lesão de ‘Kai’ não é indiferente na conversa – temos então um atleta que tem motivos clínicos para ficar de fora no resto da temporada, ao mesmo tempo que desempenhará funções institucionais importantes na negociação que necessariamente terá que haver entre jogador e liga, num possível retorno da NBA.

E é a partir deste momento que começamos a ver a verdadeira dicotomia de acções, palavras e atitudes de Kyrie Irving, regidos por uma bússola com um norte magnético difícil de compreender – talvez porque a dele seja uma bússola para terraplanistas. Temos o Kyrie activista, altruísta, com consciência social: mais de meio milhão de dólares doados para alimentar pessoas na zona de NY, paletes de comida e máscaras para tribos indígenas durante a pandemia, participação em manifestações do movimento Black Lives Matter. E temos o lado mais preocupante: um leque de acções profundamente contraditórias, que nos deixam a pensar quais as suas verdadeiras motivações, para além de ser anti-sistema em qualquer tomada de posição, antes de julgar justamente o próprio ‘sistema’ (que tem muitas, muitas falhas e ele sabe – mas não está sempre errado), e o revelam como alguém profundamente narcisista, que acaba por concentrar a notícia exclusivamente em si, em vez de uma discussão saudável sobre a substância. Veja-se: depois da NBA e NBPA decidirem por unanimidade regressar à competição na agora famosa ‘bolha’, Kyrie alegadamente organizou conference calls a defender a não-participação dos jogadores em Orlando. Portanto, um VP da NBPA, depois desta acordar regressar à competição, e com isso trazer os jogadores de volta, tentou reverter isso mesmo. Quando se apercebeu que a ideia não tinha tracção entre os seus pares (talvez Kyrie se tenha esquecido de quem representa, e que nem todos ganham max contracts, sendo por isso um corte de 30% no seu vencimento anual muito menos significativo do que aos seus colegas), namorou a ideia de os jogadores abandonarem a NBA para formarem a sua própria liga, talvez para recuperar essa receita, não obstante o cargo que ocupava. Tudo isto apesar de estar lesionado, e portanto não ser uma parte directamente interessada nos moldes em que a bolha iria acontecer. Talvez se tenha lembrado dos bons motivos para os jogadores quererem voltar quando apareceu de volta o Kyrie-bom: criou um fundo superior a um milhão e meio de dólares para apoiar qualquer atleta da WNBA que não se quisesse juntar à bubble feminina.

E é este Kyrie, incompreensível para tantos, mas na opinião dele incompreendido por tantos, que chega à temporada 2020/21. Tivemos também o regresso do Kyrie tonto: o dizer que não via a posição de head coach como um posto, e que ele, Kevin Durant, e Nash, poderiam assumir o lugar à vez consoante a vibe da noite; a sálvia espalhada pelo pavilhão de Boston. Uff, tudo normal – estás de volta, Kai. Com a nova época chega também Harden, que infelizmente demorámos a ver em acção como membro de um Big 3, uma vez que Irving se encontrava ausente por motivos pessoais e sem contacto com os Nets. Depois de múltiplas manifestações de solidariedade e compreensão vindas de todos os níveis da organização, descobrimos que Kyrie esteve afinal no aniversário da irmã, a meio de uma época estritamente controlada por protocolos a procedimentos anti-COVID e já afectada por inúmeros adiamentos provocados por infecções dentro das equipas, e não achou relevante falar a ninguém sobre isso. A restante época decorre sem grandes razões de sobressalto para Irving – temos o adepto em Boston que lhe atirou uma garrafa depois dele pisar o logótipo do Boston Garden, as múltiplas multas por media blackout, a operação ao tornozelo que o deixa fora de forma nos playoffs. Acreditem, na Kyrie-scale, foi calminho.

Em setembro, sinal de alarme: numa época que a NBA se queria tão normalizada quanto possível, descobrimos que Irving não só não tem a sua vacina tomada, como se mostra apologista de movimentos negacionistas e de conspiração online, enquanto decorrem as negociações da sua renovação de contrato. Surgem os primeiros rumores de possíveis trocas, que ambas as partes prontamente desmentem – Kyrie ainda afirma que considera retirar-se se for trocado. Depois de faltar a treinos e recusar-se a actualizar o seu estado de imunização, os Nets decidem não acomodar o jogador em part-time e deixá-lo de parte até a sua situação estar resolvida. A partir daqui, o que temos é o adiar de uma situação que nos traz ao dia de hoje: os Nets não renovaram com o atleta (Kyrie neste momento podia ter cerca de 250 milhões de dólares garantidos, se renovasse pelo max e jogasse este ano), o atleta diz que não tem interesse em vacinar-se, nem em jogar noutro lado, nem em retirar-se. Adam Silver diz que espera que o jogador se vacine – provavelmente não adorará a ideia de ter movimentos negacionistas à porta dos seus pavilhões a defenderem a tomada de posição de Irving. A última novidade da saga foram as eleições para a cidade de NY, que potencialmente afecta a legislação que mandata a vacinação sob a qual Irving e os Nets têm que se reger. A mayor eleita, questionada directamente sobre a situação, diz que as regras não serão mudadas.

Num dos vários pods que gravou com Bill Simmons durante a sua estadia nos Warriors, Kevin Durant, ainda longe de imaginar (ou não) que um dia seria colega de equipa de Kyrie, disse que este era um artista, e que se via como tal, e que devíamos todos fazer o mesmo. E essa é parte do problema. Aos artistas, no sentido tradicional da palavra, nós ‘desculpamos’. A sua arte é intemporal, e nós compartimentalizamos a obra e o personagem. Não é incompatível ter reservas sobre Woody ou Polanski, e gostar dos filmes. Julgar a toxicodependência de Winehouse, e gostar da música, e certamente não é incompatível achar o Kanye um doido varrido, e achar o ‘The College Dropout’ um álbum que pertence ao panteão do hip-hop norte-americano.

Kyrie, como atleta, não tem esse luxo. A sua arte não é intemporal, é prisioneira do momento. E nas palavras do Joker, “We live in a society”. Pode (e deve) travar as suas batalhas, lutar por aquilo que considera uma sociedade mais justa e inclusiva. Pode até achar que esse sacrifício vale não voltar a jogar basket – afinal de contas, ele próprio diz-se pronto para enfrentar todas as consequências. O que também pode é promover debate saudável em vez de media blackouts, como por exemplo nos mandatos de vacinação: é possível debater este assunto iluminando as milhares de vidas que afectou sem nos centrarmos à volta de uma pessoa, culminando com movimentos negacionistas do seu lado à porta do pavilhão. É possível a sua situação ser melhor discutida antes de ser absorvida pelo populismo da esfera política, e termos algumas figuras abjectas do partido republicano a usar o Kanye e o Kyrie como props afro-americanos das suas narrativas. Por isso, Kyrie: se não te quiseres vacinar, e a cidade não mudar o status dos seus vaccination mandates, diz abertamente que não jogarás. Fica claro para todos. A Liga sabe com o que conta, e tu podes seguir a tua luta, e não precisamos de viver com uma tab do Chrome aberta à espera do próximo episódio do Kyrie Irving Show. Porque até sabermos o que realmente queres, és só o Kanye West com umas handles e um layup package incríveis – a diferença, claro, é que o Yeezy pode ir para estúdio quando lhe apetecer.

Crónica de uma morte anunciada

A situação de Ben Simmons é bem mais fácil de explicar: é sobre NBA. Recheada também de episódios fora do court, é apesar disso algo que já vimos, algo com precedente (AD e Harden, para citar dois casos recentes) – a incompatibilização entre jogador e franchise.

A origem desta novela inicia-se provavelmente quando o famoso ‘The Process’ começa a dar os seus primeiros frutos. Depois de uma Tankathon implacável e rookies perdendo épocas por lesões, as jóias da coroa do renascimento dos Philadelphia 76ers foram finalmente apresentadas ao mundo: Joel Embiid mostra-se um poste transformador em ambos os lados do campo, não vencendo o prémio de rookie do ano em 2017 apenas por não ter acumulado um número de jogos suficientes; e Ben Simmons, um point forward moderno (lançamento à parte – e já lá voltaremos) capaz de criar para os outros, uma arma de destruição maciça em transição e com um potencial defensivo que não lhe tinha sido reconhecido em LSU, que alicerçado em médias de 16/8/8 levou para casa esse mesmo prémio um ano depois.

A partir daqui os dados estavam lançados. O Process saltou do passado para o presente – os Sixers são oficialmente demasiado bons para não competir – e a narrativa da equipa não mais abandonou estes dois jogadores: as suas valências, a sua durabilidade, e aquilo que conseguem ou não fazer juntos. Em 2018, no ano de rookie de Simmons, os Sixers partem para os playoffs em #3 de Este, apoiados na quarta melhor defesa do campeonato. Num matchup #2 vs #3, caem facilmente na segunda ronda contra os Celtics por 4-1, numa série em que lançaram 43% de campo e apenas 30% de três pontos. Claramente uma equipa cheia de promessa, em particular do lado defensivo, mas cheia de tempo à sua frente, começava a perguntar-se se estes dois inegáveis talentos poderiam coabitar harmoniosamente no ataque, se faltava à equipa algum punch desse lado da bola ou se – uma ideia radical na altura – deviam rentabilizar uma destas peças por uma estrela firmada. Talvez Embiid, que a sua durabilidade os enchia de dúvidas. Ben Simmons, afinal de contas, revelou-se um jogador com um arquétipo semelhante ao de LeBron James e esta foi apenas a sua primeira época em campo. Não estou a exagerar, foi mesmo algo que se disse.

A resposta à pergunta surge no início da temporada seguinte, com a chegada de Jimmy Butler aos Sixers. Depois de uma época regular em que muitos assumiam uma candidatura ao título, a equipa não correspondeu às expectativas, ganhando menos um jogo que na época anterior e demonstrando alguma derrapagem na defesa (Embiid falhou 20 jogos), Philadelphia volta a apresentar-se nos playoffs como terceiro seed na conferência, mas desta vez com um Big 3 capaz de impor respeito na postseason. No entanto, é novamente afastada à segunda, embora desta vez numa série incrivelmente equilibrada e em condições que não poderiam ter sido mais dramáticas.

Há lançamentos que alteram o rumo da NBA, e de vez em quando deparamo-nos com um deles. Nos últimos 10 anos tivemos a sorte de termos assistido pelo menos a três: Ray Allen, jogo 6 da final de 2013, Kyrie Irving, jogo 7 da final de 2016, e este de Kawhi. São aqueles momentos em que fechamos os olhos e sabemos exactamente onde estávamos. Infelizmente para Philadelphia, também chegam sem avisar.

Aquilo que parecia ser um core formidável para o futuro próximo, com um base e um poste a maturar ao lado de um extremo no seu prime e finalmente num candidato ao título onde tanto queria estar, precipitou-se rapidamente para o fim. Jimmy Butler não achava Brett Brown o treinador indicado para a equipa (e estava certíssimo) e era free agent, e os Sixers, certos de que Brown fazia parte da solução e enquanto ponderavam a renovação de Butler (este queria o max, Embiid já o tinha recebido, e Simmons estava a caminho de o receber) não repararam na música d’O Padrinho a entrar subtilmente de fundo na sala, e antes que dessem por isso, Jimmy Buckets era jogador dos Heat. Dado o sucesso de Toronto nesse ano, com uns Bucks ainda verdes e uns Warriors dizimados, é legítimo perguntar quão perto estes Sixers estiveram de um título. É assim.

Esta sequência de eventos é importante de contar porque, dados os contratos máximos atribuídos a Ben e a Joel, não só o Process está no retrovisor como os Sixers não têm agora cap nem activos para ir a uma terceira estrela – para o bem ou para o mal, o sucesso do franchise está nos ombros destes dois senhores. E apesar da contínua especulação mediática sobre possíveis trocas – continuam as cada vez mais legítimas dúvidas sobre a coabitação destes dois excelentes jogadores em campo – os Sixers seguiram o mesmo caminho. Não demorou muito tempo a revelar-se um caminho frustrante: a perda de Butler foi colmatada com a chegada de Tobias Harris, visto como um bom jogador com um contrato muito pesado que os Sixers arriscaram absorver e os Clippers contentes em trocar. Foram sextos classificados na conferência, Brett Brown definitivamente não fazia parte da resposta, Embiid voltou a falhar 20 jogos, e Ben Simmons falhou os playoffs com uma lesão nas costas. Resultado: saída à primeira com os Celtics, numa vassourada em que a prestação assombrosa de Joel (30/12 com 1.3 blocos – os Sixers tiveram um NetRtg de +3 com Joel em campo numa série em que globalmente tiveram um de -12.4) de nada serviu.

Respostas pediam-se, mudanças eram necessárias. E estando os Sixers ainda num impasse relativamente ao futuro dos seus dois prodígios, foram trocados os principais decisores da organização: Daryl Morey e Doc Rivers eram, para a temporada 2020/21, os novos GM e treinador. A Doc pediam-se soluções para complementar os jogos de Simmons e Embiid em campo: certamente um treinador com créditos firmados em décadas de liga e um título em Boston teria a solução. Rivers era tudo o que Brown não foi: experiente, respeitado por jogadores e com sucesso na liga. De Morey exigia-se algo igualmente desafiante: o cérebro por detrás dos Rockets, a única equipa na conferência Oeste que tentou inovar, competir e encontrar soluções para combater o reinado dos Warriors, era agora responsável por montar uma equipa à volta de dois talentos que cada vez geravam mais dúvidas sobre a possibilidade de terem sucesso juntos – e se isso não fosse possível, então encontrar uma troca que permitisse aos Sixers alcançarem voos mais altos numa outra iteração.

Morey foi claro: que não vinha com ideias pré-concebidas dos Rockets sobre como a equipa devia jogar (leia-se ‘apostar no heliocentrismo de uma estrela e encher a equipa de triplistas’, que os Sixers claramente não tinham) e que queria fazer o plantel funcionar potenciando as capacidades de Simmons e Embiid. Valha a verdade, cumpriu com o que disse. Numa tentativa de melhorar o spacing da equipa, Al Horford e Josh Richardson receberam guia de marcha e chegaram Seth Curry e Danny Green.

A época começa promissora, os Sixers apresentam um basket mais limpo e um registo de 7-1. Mas Morey, conhecido por não ter medo de correr riscos e tentar melhorar o plantel, é irresistivelmente atraído pelos sinais de fumo que chegam da sua antiga casa, em Houston: Harden quer sair. E na NBA, quando uma estrela deste calibre quer sair, normalmente (sempre?) sai. A ligação Harden-Morey é evidente, assim como é evidente o desfecho de uma eventual troca: com Embiid a jogar o melhor basket da sua vida, por uma questão de fit e daquilo que os Rockets procuravam numa troca, e para os salários poderem tornar essa troca legal, o cordeiro sacrificial teria de ser necessariamente Ben Simmons. E é a partir daqui que as coisas não voltam a ser as mesmas em Philadelphia. Semanas de rumores depois, Harden é oficialmente um Net, rival dos Sixers pela supremacia na conferência e pela aquisição do jogador. Philadelphia alegadamente tinha um princípio de acordo com Houston, avisou Simmons que a troca poderia ocorrer a qualquer momento, mas a não inclusão de Tyrese Maxey no negócio terá deitado tudo a perder.

Se este episódio deixou marcas profundas na equipa, foram bem disfarçadas. Apesar de Simmons ter falhado 14 jogos e Embiid outros 21 (em 72 possíveis), a equipa encontrou uma identidade defensiva que a levou ao primeiro lugar de Este na fase regular. O camaronês foi o único candidato realista a roubar o MVP ao sérvio Nikola Jokić (enquanto esteve em campo), e o australiano perdeu o prémio de melhor defensor do ano apenas para o francês Rudy Gobert, que completou o hat-trick desse galardão (fim de pot-pourri nacionalidades). Chegados os playoffs, Philadelphia não teve dificuldade em ver-se livre de Washington, antes de conhecer um destino familiar: derrota à segunda, desta vez contra os Hawks. O que não foi familiar foi a maneira como aconteceu, e as marcas que deixou.

Ponto prévio: Ben Simmons tem um problema grave com o seu lançamento. Não sabemos se a teoria do Kevin O’Connor tem alguma validade, mas sabemos aquilo que os nossos olhos vêem: é um lançador com deficiências técnicas grandes (59.7% de carreira da LL) que causam um problema ainda maior, que é o da falta de confiança no seu lançamento exterior. Ele simplesmente recusa-se a fazê-lo. Nas últimas quatro épocas (as que jogou na sua carreira), Ben Simmons é o único (!) jogador da NBA que tentou mais de 3000 lançamentos ao cesto, dos quais menos de 50 foram triplos. Ninguém na NBA tem este perfil (nem postes!), e portanto algo deve estar errado, tem que estar. Sabiam que Simmons está 5/17 de triplos nas últimas duas épocas? Corresponde 29,4% – o Westbrook tem 29.0% em quase 500 tentativas! OK, não precisamos do oitenta para criticar o oito, mas o ponto mantém-se: ninguém está a pedir ao Ben Simmons que acorde e seja o Steph – o que se pede é que o triplo ocasional do canto seja lançado quando está off-ball, e que a ameaça, qualquer ameaça, de um tiro exterior (incluindo não-triplos) pode abrir o seu jogo para muitas outras coisas, como DeMar DeRozan ou Jimmy Butler o fazem.

De volta à série com os Hawks, e, humm… Espera, já me lembro por que razão fiz este ponto prévio.

Certo, era por isto. Bem, agora sim, de volta à série com os Hawks!

Ouch. Series-over. E foi aqui que a proverbial porca torceu o proverbial rabo. Numa conferência de imprensa lamentável e que marca o ponto de ruptura na relação do australiano com a sua equipa, Joel Embiid e depois Doc Rivers conseguem, no espaço de meia hora, atribuir a culpa da derrota no jogo a Simmons e dizer que não sabem se um jogador como ele pode ser o base numa equipa de título.

OK, isto foi imenso. Se por um lado podemos desculpar Joel Embiid por estar no calor do momento e ter sido mais ou menos conduzido pela pergunta a dar aquela resposta, ele devia saber mais e melhor. É um jogador extremamente inteligente que já provou vezes sem conta saber como funciona o ‘jogo’ dos media. Doc Rivers, por outro lado… Minha nossa senhora. Primeiro, devia ter ouvido as palavras de Embiid, percebido o problema que poderiam (iriam) causar, ter colocado água na fervura e mitigar esse impacto dentro de portas. Não só não fez isso, como amplificou o sentimento dizendo o que disse, destruindo em instantes o valor de mercado de um jogador que, nas suas próprias palavras, a equipa teria seriamente que ponderar trocar. Giro. Lembram-se que o Doc Rivers já foi treinador E general manager simultaneamente? Deve ter corrido muito bem aos Clippers.

A partir daqui, foi oficialmente ultrapassado o ponto de não-retorno desta situação. Ben Simmons, no espaço de seis meses, descobriu que está empregado por mais quatro anos numa empresa cujo manager o tentou trocar, o chefe diz que não sabe se pode contar com ele para ter sucesso, e o team leader diz que ele é culpado pelo último insucesso da equipa. Não sei quanto a vocês, mas eu começava a enviar currículos. Claro que o rapaz não pode fazer isso (e recebe principescamente por estar nesta situação, diga-se de passagem), então simplesmente deixou de atender o telefone e disse que se queria ir embora. Os Sixers, tentando inicialmente que o jogador ficasse, abriram depois as linhas telefónicas para explorar trocas pelo jogador, que foram ridicularizadas um pouco por toda a liga. A situação pouco mudou até ao início de Novembro, exceptuando o facto de Simmons ter aparecido para a nova época sem avisar os Sixers, regressado aos treinos de telemóvel no bolso, ter sido expulso de um treino por não querer participar, ter-se dado como não apto por um problema nas costas que os Sixers disseram ser inexistente, e finalmente ter dito que a sua condição mental não o permitia apresentar-se em campo. Casa onde não há pão…

Comecei por dizer que era uma situação mais fácil de analisar que a de Kyrie, por ser um problema da esfera da NBA – e é verdade. O problema reside no facto de dificilmente poder ter sido pior gerido por ambas as partes até hoje. E agora? Bem, Ben Simmons não será jogador dos Sixers a longo prazo, isso é certo – será uma surpresa enorme ver o australiano jogar em Philadelphia na próxima época. Até lá, pouco mais há a fazer do que tentar recuperar o valor de mercado de alguém que, lembremo-nos, era visto como um All-Star e um dos melhores defensores do planeta há seis meses. Daryl Morey claramente quer mais pelo jogador do que as equipas estão dispostas por ele. As restantes equipas, vendo a triste situação que se está a passar – cujo último e lamentável episódio é os Sixers quererem ter acesso a informações relativas às consultas de saúde mental de Simmons (sugerindo a possibilidade de o jogador poder estar a mentir para não jogar) – têm legítimas dúvidas sobre o que significa trazer um jogador destes para o seu ambiente, e que sucesso poderão ter com ele, ou que garantia têm de que isto não poderá suceder consigo. A única solução para tentar haver algum equilíbrio entre ambas as partes numa eventual troca é o atleta voltar: recuperar algum do seu valor e demonstrar que um talento destes comprometido com um contrato que oferece garantias a quem o for buscar se trata de um bom investimento. Porque, se há um ano, uma troca Ben Simmons – Jaylen Brown era algo perfeitamente razoável, hoje em dia esta troca resultaria no internamento de Brad Stevens para fazer exames ao cérebro; não por Simmons eventualmente não ser tão bom jogador como Brown (essa é outra discussão), mas porque simplesmente não vale isso ao dia de hoje.

O mundo da NBA, infelizmente para Nets e Sixers, continua a girar (eheh, percebeste esta, Kyrie?), tal como a bola nesse jogo da fase regular. E para duas equipas que alimentam esperanças em voos muito altos, essa noite do fim de Outubro serviu para se lembrarem de quem são hoje em dia, na ausência dos seus bases: Embiid esteve em dúvida por lesão, e numa partida nem sempre bem jogada, o talento dos Nets acabou por se sobrepor, num jogo que não ficará na memória de ninguém. Claxton e Maxey, ironicamente, foram os piores jogadores de cada equipa em +/-, e algures nos seus camarotes, Sean Marks e Daryl Morey ter-se-ão também apercebido que haverá mais momentos negativos do que positivos enquanto não resolverem aquilo se passa em suas casas.

por LUCAS NIVEN [@lucasdedirecta]