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O tanking morreu. Longa vida ao tanking!

Há muitas razões para se considerar o Natal como o início ‘a sério’ da época de NBA. Os primeiros dois meses de competição permitem fazer uma avaliação inicial do que valem as equipas, é a meio de Dezembro que virtualmente todos os jogadores ficam elegíveis para trocas, o calendário da NFL começa a aproximar-se do fim, e o virar do ano permite aos clubes decidir em alinhar em estratégias de curto prazo para esta temporada ou começar a pensar num horizonte temporal mais distante.

O All-Star Break aproxima-se a passos largos (#NeemiasQueta #NBAAllStar), e com ele a trade deadline e o mercado de buy-out, em que as cartas para a presente temporada ficam definitivamente lançadas. É nesta altura que gostamos de ver os candidatos a entrar na sua melhor forma. No espectro oposto, e porque para haver compradores tem que haver vendedores, é também a partir do início do ano civil que as equipas sem aspirações começam a medir forças (fraquezas?) pelo melhor posicionamento possível no próximo Draft da NBA – uma luta titânica pela futilidade em busca de um futuro melhor.

E é nesta parte da minha divagação que paro para pensar: é impressão minha ou a discussão do tanking anda significativamente mais morna nos últimos tempos? Se sim, porquê? Temos menos equipas interessadas em não ganhar? Novamente, se sim, porquê? Terá a alteração das odds na Lottery ou a introdução do play-in algo a ver com isso? Ou será este apenas um tópico gasto, que com tantas outras discussões caiu no esquecimento dos cabeçalhos da NBA?

Na época 2018-19, e na resposta à crescente discussão sobre a maneira como o tanking afectava a legitimidade desportiva do último terço de temporada (eu próprio sou testemunha deste fenómeno: em Março de 2018 estive no Madison Square Garden para assistir a um Knicks vs. Bulls que incluiu mais de 20 minutos de jogo para Mudiay e Isaiah Hicks em NY e a titularidade de Paul Zipser e Cristiano Felício do lado de Chicago. Basquetebol em estado puro), Adam Silver e o Competition Committee decidiram ‘aligeirar’ o favoritismo que as piores equipas detinham em conquistar os melhores lugares no Draft:

A intenção foi boa. A hipótese de 1 em 4 da pior equipa poder escolher o melhor prospect era demasiado apelativa para franchises que estivessem sem rumo, quer fossem maus ou simplesmente medíocres. Em classes com cabeças de cartaz que prometiam mudar o destino de uma equipa, como Tim Duncan, LeBron James ou Anthony Davis, isto gerava uma autêntica caça às derrotas na esperança de encontrar o oásis que nos salva a meio de uma travessia no deserto. O problema, claro, é que apenas uma pode levar o prémio, e as restantes equipas acabavam por continuar medíocres, e com uma escolha de Draft cujo talento não correspondia à delapidação a que a organização se sujeitou para o ter.

Assim, a pior equipa passou a ter menos de uma hipótese em sete de escolher em primeiro e já nem sequer é a favorita: as três piores equipas partilham agora o (diminuído) favoritismo. Estas equipas, antes com grandes hipóteses de no pior cenário terem uma pick top-3, têm agora praticamente 60% de hipóteses de não o conseguirem. Em sentido inverso, as restantes equipas da Lottery viram as suas probabilidades aumentadas, num sinal claro de que a liga estava disposta a aumentar a ‘sorte’ de quem tentou ser competitivo mais tempo, tendo sido inclusivamente aumentada a hipótese de ‘saltar’ na Lottery para o top-5, quando antes apenas era possível fazê-lo para o top-3.  Quanto aos resultados, tirem as vossas próprias conclusões:

É importante dizer que o novo formato tem uma amostra pequena com apenas três Lotterys realizadas, mas como esperado, a beleza da matemática é que não falha, e já se faz sentir: vemos uma ordem muito mais aleatória, equilibrada e distribuída nos últimos três sorteios do que nos dez anteriores. Entre 2009 e 2018 nunca uma das equipas nos cinco últimos lugares do sorteio saltou para o top-3; no novo formato a 11.ª equipa com maior probabilidade já saltou uma vez para o top-5. No formato anterior, as cinco equipas com pior registo escolheram no top-5 em 84% das vezes (42 em 50) e no top-3 também em 84% das ocasiões; desde 2019, isso ocorreu apenas 60% e 40% das vezes nos últimos três sorteios.

Há alguma vantagem em ter o pior registo? Evidentemente que há, basta lembrar que a matemática não mente e o pior lugar garante a melhor probabilidade. Mas será que o nivelar dessas probabilidades justifica agora abandonar um produto desportivamente competente em campo, procurando soluções de construção de plantel mais sustentadas do que a opção “Olha, que se lixe, ‘bora até lá abaixo e esperar que os 25% batam”? Vale a pena o sacrifício na organização, desde a cultura que se tenta construir, à criação de uma ideia de jogo, venda de bilhetes e valorização da marca para ter a segunda ou a terceira maior probabilidade de ganhar a Lottery em vez da sétima (que até já ‘sacou’ um 1.º e dois 4.º lugares no novo formato!) ou oitava? A resposta parece ser não. Estará a liga a acompanhar o que a lei das probabilidades parece estar a sugerir?

É uma questão difícil de responder, em parte porque algumas equipas são genuinamente fracas e o seu tecto baixo pode ser independente de questões de tanking, e porque não são necessariamente as piores que incorrem em maratonas incríveis de derrotas para proteger os seus interesses (como o sprint de miséria que os Warriors fizeram em 2012 para salvar a sua pick – perdê-la-iam se caísse fora do top-7 – depois de um início modesto de 18-21, galoparam uma série de vinte e duas derrotas em 27 jogos, e mantiveram a escolha do Draft, que acabou por ser Harrison Barnes). De qualquer modo, podemos espreitar como se têm comportado as piores equipas nestes horizontes temporais:

*inclui os registos da presente temporada

Os sinais, que podem ser vistos como tímidos, são extremamente encorajadores: quase sem excepção, todo o último terço da tabela ganha hoje mais jogos sob o novo formato da Lottery do que nos dez últimos anos do antigo formato; isto é notável. Melhoram em média um jogo por ano, face ao período anterior, o que quer dizer que em cada uma das quatro últimas épocas, o último terço da tabela ganhou em média 10 jogos às restantes equipas – é, novamente, um salto competitivo maior do que pode parecer, e é um resultado tangível desta alteração. Temos hoje, por ano, menos uma equipa abaixo das 20, 30 e 35 vitórias na tabela. A competitividade, inegavelmente, aumentou.

É importante dizer que apesar dos números indicarem uma tendência na direcção certa, há muitas variáveis a ter em conta: a amostra dos últimos três anos e meio ainda é pequena quando comparada com a década anterior, é difícil (ou quase impossível) quantificar o quanto a performance destas equipas foi beneficiada ou prejudicada nas últimas três temporadas afectadas pela pandemia, e, principalmente, o impacto que a introdução do play-in pode ter gerado no aumento de competitividade na metade inferior da tabela.

E é aqui que pode estar o segredo do maior equilíbrio que temos visto. Se antes, ao virar do ano (o mais tardar, na pausa do All-Star), tínhamos a playoff picture claramente definida, com 10 equipas por conferência – no máximo – a disputar um lugar nos playoffs, agora temos mais duas vagas de cada lado e mais um ‘ponto de inflexão’ ao qual as equipas concorrem: não só são mais duas as equipas que sonham com a perspectiva de disputar a postseason (e vender isso a patrocinadores, adeptos, potenciais free agents, e ter a receita em caixa), como também há uma motivação extra na disputa do acesso directo entre os 6.º e 7.º lugares. De uma assentada, a NBA colocou a tabela toda em disputa: no top-4 garante-se uma ronda de playoffs em casa, até ao 6.º o acesso directo, e do 7.º ao 10.º a possibilidade de lá entrar (aqui com factor casa em disputa no mini-torneio). Significa isto que no ínicio de cada ano não é exagero dizer que há 12 equipas em cada lado com legítima esperança de jogar basquetebol a eliminar a partir de Abril. Os resultados estão à vista: temos apenas duas equipas de cada lado, esta época, ‘desinteressadas’ em vitórias (Magic e Pistons, Thunder e Rockets), com as restantes a tentar fazer pela sua vida desportiva. Com apenas oito lugares de acesso ao playoff, quão mais cedo equipas como os Pacers ou Blazers, actualmente numa encruzilhada importante em relação ao seu futuro, não teriam já ‘rebentado’ os activos que têm? Com as odds da Draft Lottery antigas, quantas derrotas a mais já teríamos visto nuns Wizards, Kings, ou mesmo Thunder?

Muita coisa se pode dizer da gestão de Adam Silver durante esta pandemia: ele, como virtualmente qualquer decisor ou governo, cometeu erros. Na minha opinião, foi globalmente positivo. Porque salvou 2019-20 (Bubble Lakers forever) e porque o que quer que se tenha decidido nos dois últimos anos fê-lo com a assinatura e acordo dos jogadores. Democraticamente, sem autoritarismos (o que nem sempre se pôde dizer de Stern). Não há dúvida que é um progressista e isso é sempre positivo para a NBA: não tem medo de novas ideias, de novos formatos, de experimentar – mais um claro antagonismo face a Stern. É menos fácil do que parece: a NBA gosta das suas tradições, das suas estatísticas, do seu playoff a 8 em cada conferência, dos seus 82 jogos. Podemos nem gostar de tudo o que ouvimos, como da alegada ‘taça’ que anda a ser estudada ou da implementação do ‘Elam Ending’. Mas cada vez se ouve falar menos de tanking e o mérito é dele por premeditação (alteração das probabilidades da Lottery) e por oportunidade (a criação do play-in quando se abateu a pandemia). Se a primeira veio para ficar, esperemos que tenha coragem e que haja abertura para manter a segunda. Não quero estar cá para ver, mas temo bem que o desaparecimento do play-in traga mais tanques de volta ao campo de batalha, e a NBA nada ganha com isso.

por LUCAS NIVEN [@lucasdedirecta]

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