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Olha lá, quem são os miúdos que jogaram naquela equipa da G-League este ano?

Com o Draft mesmo à porta, não o queria deixar, augusto leitor, sem mais uma salada de palavras sobre a classe que vai agora fazer a chamada. Optei por escrever sobre os mais iminentes prospects do projecto G League Ignite, que propositadamente omiti do meu anterior artigo, não por ter comido muito queijo, mas para incluir aqui. Mesmo sem nenhum candidato ao top-3, existe um trio interessante para a lottery. Não vou falar de dois jogadores – Scoot Henderson e Michael Foster Jr, neste artigo. O primeiro, maior candidato a usurpar o Wemby da posição #1 em ’23, por não ser elegível, o segundo é porque não me apetece.  Estando tudo dito, vamos principiar!

Dyson Daniels, um exercício de unir os pontos

Apesar de uma postura discreta fora de campo e um jogo pouco vistoso dentro dele, o aussie Dyson Daniels apresenta-se como o prato principal da leva de 2022 da Ignite Team, tendo disparado nos boards, muito à boleia de uma inteligência acima da média e de uma evolução física incomum (sempre difícil confirmar, mas diz-se que pode ter crescido ≈5 cm desde o início da temporada).

Daniels, como o subtítulo indica, é um conector a partir da posição de base. É um dos melhores passadores da classe, especialmente, mas não só, em situações de caos, tendo uma combinação de técnica irrepreensível e intelecto para gerir várias leituras, manipular a defesa e fazer a decisão certa. Um conjunto de habilidades raro num draft que carece de bons connoisseurs do jogo.

A sua altura e envergadura, combinadas com esta capacidade de processar o jogo a um alto nível, tornam-no no tipo de base que age e reage rápido e quase sempre de maneira a tirar proveito de situações ofensivas de alta alavancagem, como a correr P&Rs secundários, atacar closeouts ou encabeçar a transição. Ver o Dyson a jogar é constantemente estar a olhar para o ecrã e dizer, ‘olha, está bem pensado!’.

Se no ataque ganha com inteligência, versatilidade e disposição, na defesa coloca as mesmas ferramentas a uso – É versátil no duelo individual, tem umas mãozinhas espertas, bem como tamanho para defender várias posições. Da mesma maneira, é um bom comunicador, proactivo nas trocas e rotações e uma besta a *aspirar* linhas de passe (See what I did there?), por vezes entusiasmando-se até demais.

Tudo isto contrasta, porém, com a sua incapacidade de criar vantagens de forma sustentada. É um jogador que tem de estar atado a alguém que dobre consistentemente a defesa. Isto nota-se no seu desenxabido jogo de P&R, onde carece da ameaça de um pull up jumper para obrigar a defesa a dançar como ele quer, ou simplesmente no 1v1, onde tem o tamanho para atacar em linha recta, mas um drible pouco evoluído e pálida explosão na passada/a finalizar. É também particularmente inflexível, o que lhe limita a capacidade de baixar o centro de gravidade e ganhar na força.

Tudo isto pode não interessar. Dyson é um jogador que vai vender o seu peixe assim, como um super role player de chão alto/tecto meh, o que pode ser mais que suficiente para uma escolha no top-10, especialmente numa segunda parte da lottery pouco inspirada. A swing skill, que, com base no seu shooting touch, eu compro, será sempre o lançamento, que pode transformar esta ideia de um jogador que faz tudo benzinho, num pesadelo de ‘desafio-te a lançar num ambiente playoff’, aka Tony Allen challenge.

Jaden Hardy, a irreverência do shotmaking

Ora se Dyson Daniels é o gelo, Jaden Hardy é o fogo! Um lendário shotmaker no High School de Coronado, o base de Detroit, em tudo o inverso do colega, começou a pré-temporada como um favorito ao top-5, e de lá deu um trambolhão pelos boards abaixo, com um ano G-League de fraca eficiência, onde teve dificuldades a criar num jogo fisicamente mais dotado, bem como a oferecer valor sem a redondinha.

Hardy ganha o seu dinheiro como alguém superdotado a disparar a partir do próprio drible, com uma mixtape de pull ups e stepsides com 2 passadas atrás da linha de 3 pontos. As percentagens podem contrariar-me, mas quem o viu jogar saberá que estas são mais ilustrativas de uma má selecção de lançamento, mais do que uma incapacidade de converter, e que o puto sabe lançar (também no C&S).

Para completar o ramalhete com o shotmaking, Hardy tem um perfil físico interessante (ombros largos e uma estrutura muscular desenvolvida, forte), bem como um drible inventivo e atrevido, apesar de inseguro. Este trio de habilidades tornam-no num aliciante projecto de criador ofensivo, com as chaves para abrir as portas do P&R e ser muito mais eficiente do que mostrou a colapsar defesas no 1v1.

Não há como negar, porem, que existe muito ataque feio no jogo de Jaden. A temporada de 21/22 mostrou um jogador que teve dificuldade em usar o corpo para se impor no aro, que não tem o burst na passada para ganhar constantemente, da mesma forma que nem sempre toma as melhores decisões a distribuir, para ser simpático. No fundo, falta-lhe o que Dyson Daniels tem aos molhos – visão e processamento de jogo, versatilidade para encaixar num papel de menor utilização, bem como tamanho e proficiência defensiva, zona da quadra onde foi um negativo.

Sou da opinião que o base continua a valer a pena na lottery, que caiu demasiado nas opiniões para alguém que tem traços de estrela assim que se prepara para entrar na liga de estrelas por excelência. Ainda assim, existe muito risco, existe uma grande amplitude entre chão e tecto, existe uma curva de adaptação para alguém que sempre viveu habituado a fazer a diferença com a laranjinha, e atingiu uma carreira onde tem de diversificar a sua abordagem.

MarJon Beauchamp, o valor posicional

MarJon Beauchamp é o mais velho do grupo, bem como o nome mais discreto nos boards (o seu stock vive algures entre o meio e o fim da ronda #1). Com uma trajectória de carreira incomum: Ponderou o salto HS à NBA, passou pela Yakima Valley University por um minuto, antes de tomar a aparente correcta decisão de passar a última temporada, relativamente bem-sucedida a nível individual, na G-League.

Talvez seja errado categorizar Beauchamp como um wing 3&D, um chavão em sobredosagem de utilização, até porque o aproveitamento exterior não tem sido assim tão favorável. Ainda assim, a ideia com MarJon é algo semelhante – um asa que tira proveito dos seus traços atléticos (alto, longo, bom pop vertical com chamada a dois pés) para impactar o ataque de alguma maneira, com pouca utilização, seja a receber e meter a bola no chão até ao garrafão, a correr no contra-ataque e especialmente a cortar nas costas do seu defensor. Age sempre com decisão com a bola e finaliza com força, e, se o lançamento evoluir no sentido de fazer a defesa agarrar a linha de 3, cuidado com ele.

 A juntar ao seu jogo ofensivo, trata-se de um defensor versátil, com belíssimo motor, óptimos instintos a ajudar o garrafão vindo do canto, e capacidade atlética para comer espaços com cada enorme passada.

A sua proficiência no 1v1 é menor do que a sua defesa colectiva. A stance defensiva nem sempre é a melhor, o mesmo para a navegação de bloqueios directos, mas não deixa de ser mais do que competente a deslizar lateralmente com o adversário, sendo bastante trocável. Não o antevejo como o defensor que tem a tarefa de defender a estrela, mas projecta como um positivo, sem espinhas. Num draft menos abonado de talento, existe um ponto forte bastante particular – a presença de wings longos, que conseguem lançar, meter a bola no chão e passar simples, para além de defender cá fora.  Marjon Beauchamp pode ser um deles! Vai ser interessante seguir esta zona mais morna da grande noite e analisar que equipa de playoff sacou um possível interessante contribuidor de rotação.

por NUNO SOARES [@NunoRSoares]

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