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Regresso ao futuro: como os Warriors renasceram das cinzas

Temos campeão, e é o quarto diferente em outros tantos anos: os Golden State Warriors ‘enganaram’ toda a gente (o FiveThirtyEight antevia uma época 36-46 com uma probabilidade de título de 0.1%; o Basketball-Reference, mais generoso, de 8.3%) e conquistaram o quarto título nos últimos oito anos. E se agora, após fecharem a série frente aos Celtics com três vitórias consecutivas (incluindo um par delas em Boston), ficamos com poucas dúvidas que tivemos um justo campeão, isto não foi assim tão claro ao longo dos últimos anos. Longe disso, até. Como chegámos até aqui?

Um ponto prévio: eu gosto mesmo muito de ver paridade da NBA, mas ainda gosto mais de ver equipas de basquetebol bem construídas. Foi por isso que quando Steve Kerr assumiu o leme desta equipa e percebeu o que tinha no trio de Steph Curry, Klay Thompson e Draymond Green, todos seleccionados pela organização com as escolhas 7, 11 e 35 no espaço de quatro anos, o resultado foi simplesmente irresistível. Um basquetebol moderno, com um QI no máximo dos dois lados da bola, partilha em campo, e uma defesa de elite que ficou sempre na sombra dos cabeçalhos do ataque. Lembram-se?

Foi também por isso que odiei quando Kevin Durant assinou pelos Warriors. Egoisticamente, atenção. KD fez a escolha que 99% de nós teria feito na mesma situação (se vos ligarem da empresa líder de mercado, para trabalhar com os melhores profissionais e vos pagarem o máximo que se paga na vossa área, das duas uma: ou aceitavam ou estão a mentir), e os Warriors fizeram a escolha que qualquer equipa faria. Mas para mim, os Warriors não voltariam a ser os mesmos: toda aquela orgânica de crescimento natural e o desafio da reconquista depois da derrota com os Cavs desapareceu, e com isso o rebentar da paridade na NBA. Tudo por causa de um salto estúpido no cap.

Sim, tudo isto só foi possível (e sim, também estou a falar do título deste ano) por causa de um novo contrato televisivo que a NBA negociou com as estações americanas. A entrada de (muito) mais dinheiro promoveu o maior aumento anual do cap em mais de 20 anos (superior a 35% face ao ano anterior), e de repente todas as equipas tiveram mais $25M para operar nessa free agency. Qualquer equipa, mesmo sem cap, de repente poderia fazer a sua jogada por KD com ajustes mínimos à sua folha salarial… e os Warriors fizeram-na, e conseguiram.

O resto é História: nos três anos seguintes torci pelos seus oponentes na final, na qual os Raptors tiveram mais sorte que os Cavs, e aproveitaram uma série de lesões para impedir o mais que certo primeiro back-to-back-to-back desde os ‘Shaqobe’ Lakers de 2000-2002.

Depois disso, o que se passou desde 2019, voltou a fazer-me torcer e apaixonar-me por esta equipa – um tratado em organização basquetebolística, desde a identificação de terem um processo interno sólido na comunicação entre dono – basketball operations – equipa técnica – jogadores, a certeza de que o talento, saudável, ainda era bom, voluntarismo para despender tempo, e muito, muito dinheiro na recuperação e reabilitação da equipa.

Primeiro, houve a saída de KD. Os Warriors, onde muitos outros tentariam convencer o jogador a ficar até ser tarde demais, identificaram a causa como perdida, e trabalharam com o jogador para o colocar onde queria, nos Nets. Trouxeram na volta D’Angelo Russell, que em sete meses transformaram em Andrew Wiggins e numa escolha de draft pouco protegida dos Wolves. Hoje, se calhar, conhecem-nos como ‘o segundo melhor jogador da equipa que ganhou a final da NBA’ e ‘Jonathan Kuminga’. Por um jogador que se iria embora, por nada.

Para isso ser possível, a gestão de topo teve de pagar cheques muito, muito chorudos. Steph assinou a supermax em 2017, tornando-o à data no jogador com o contrato mais elevado de sempre; Klay Thompson assinou um contrato máximo que entrou em vigor em 2019, depois de rebentar o seu Aquiles – recebeu mais de $100M em três anos, essencialmente, pelos últimos dois meses da época de 2022; D’Angelo Russell chegou na sign-and-trade por KD, também por um contrato máximo. Em suma: os Warriors pagaram em 2021 cerca de $117M apenas em ‘imposto extra’ (e foram a equipa com a luxury tax mais alta da época), por uma equipa eliminada no play-in; em 2022 pagaram $170M (quase o dobro da segunda), por uma equipa… que acabou de se sagrar campeã.

A equipa de operações de basquetebol, confiante de que o seu trio seria espinha dorsal suficiente para voltarem à terra prometida, teve de reconstruir em três anos todo o restante plantel: apenas Kevon Looney e Andre Iguodala também faziam parte da equipa aquando da derrota com os Raptors, e Iggy é hoje o Udonis Haslem desta equipa (magníficos os momentos de tutorial a Wiggins a que fomos assistindo). Acertaram muito, muito mesmo – já falámos da troca de KD e no que resultou –, Moody e Kuminga apresentam-se como pedras sérias a prolongar a vida desta dinastia, e Jordan Poole e Gary Payton II, que estiveram a dada altura disponíveis para assinar por qualquer equipa, foram parte de uma rotação de 8 homens que acabou de se sagrar campeã. Também falharam (James Wiseman ainda tem tempo, mas para a janela de curto prazo que tinham prevista para a equipa terá sempre sido um tiro ao lado nos seus planos), mas foram excelentes no seu trabalho – até no regresso de Iguodala, de quem tiveram de se despedir provisoriamente para fazer a chegada de Russell funcionar na contabilidade.

Há a equipa técnica, claro. Steve Kerr teve o melhor curso do mundo, aquele que mais ninguém pode tirar: esteve num balneário com Phil Jackson e Gregg Popovich, e em campo com Michael Jordan e Tim Duncan. E isso nota-se. Há muito que defendo que um Head Coach tem de ser um líder de homens primeiro e um especialista em basquetebol depois; Kerr concorda, com a humildade de contratar o melhor staff possível, sabendo que há especialistas para as várias vertentes do jogo que são melhores que ele, e tomar as melhores decisões em campo por comité. Deixem para ele a parte do leme: ele sabia por onde ia em 2014, e sabia por onde ir em 2019. Sabe que tudo começa e acaba em Steph, o ‘seu’ Tim Duncan, a fundação de uma organização que a todos contagia com a humildade e generosidade que nem todos os Grandes tiveram. E a si competiu-lhe avaliar, treinar, potenciar as peças que lhe foram dadas para encaixar nas três originais, seguro de que tinha o posto de trabalho garantido, e margem para errar. Perfeito. 

E depois, claro, há os jogadores. Sem eles nada feito, e apesar da NBA continuar a cometer a atrocidade de colocar o troféu nas mãos do dono do clube em primeiro lugar na hora da vitória, são eles as peças mais importantes. São eles quem ganham ou perdem esse troféu, e que têm mais a ganhar e perder na finitude das suas carreiras. E falar da influência de Iguodala, das carreiras de dúvidas desfeitas a pulso de GP2 ou Poole, de Otto Porter encontrar uma nova vida na NBA, de Looney ser o maior soldado desta equipa ou da enorme história de validação (e vacinação, eheh) que Andrew Wiggins encontrou em São Francisco é tema para todo um outro artigo, por isso foquemo-nos nos três originais.

Em Klay Thompson, que jogou em 54 dos 241 jogos que os Warriors fizeram nas últimas três temporadas (incluindo os 22 destes playoffs); passando por duas lesões que, sozinhas, já deitaram carreiras por terra. A travessia no deserto da recuperação, as dúvidas sobre o nível a que voltaria (ou, conhecendo o Klay, a falta delas), o aparecer no momento certo, sem saber se poderia confiar totalmente no seu corpo mas indubitavelmente disposto a colocá-lo em risco por estar naquela situação mais uma vez, a de levantar um caneco. Não é o Klay de antigamente, mas é o Klay de sempre. E se começou muito mal na defesa, acabou francamente positivo, com as pernas a aparecerem-lhe ao longo da série, melhorando muito o movimento lateral e o próprio lançamento. Não tivemos Game 6 Klay, mas no 5 foi gigante.

Em Draymond Green, desde sempre e para sempre, a alma desta equipa. Em Janeiro de 2020, com Klay magoado e Steph com a mão partida, lá estava ele, com Kerr, a ver o que funcionava, a batalhar. Com Glenn Robinson III e Alec Burks e Omari Spellman e Eric Paschall e Ky Bowman e Dragan Bender. Mas também com Poole e Looney, e Juan Toscano-Anderson e Andrew Wiggins. Não foi sempre bonito, mas também nunca deu espaço para dúvidas. Disse a quem o quis ouvir que eles estariam de volta, e aí teriam de o ouvir a ele. Ao seu melhor nível ainda é o melhor defensor da NBA, e inúmeros podcasts depois, agora têm de o ouvir.

E claro, Wardell Stephen Curry II. No fundo, é para isto que vemos a modalidade mais bonita do mundo; para vermos os Grandes tornarem-se Maiores. Os rankings far-se-ão e interessam muito pouco. Obstáculos que julgaríamos exagerados num conteúdo de ficção foram ultrapassados à nossa frente, em tempo real. Ver um dos melhores de sempre, depois da montanha ter sido por si escalada várias vezes, vir aos trambolhões até cá abaixo e voltar a subir, passo por passo. Três anos, à custa de um trabalho que nem conseguimos ter noção da sua magnitude, tão boquiabertos que ficamos com o seu talento natural. Mas se 2015 foi a primeira paixão e 2016 o primeiro coração partido, 2017 e 2018 deixaram um estranho sentimento de dever cumprido mas não de total realização, quase como se algo não estivesse completamente certo (falo por mim, não por ele). E assim, 2022 foi o ano de Stephen Curry, dos seus guerreiros naquele balneário, do treinador que o libertou das convenções do basquetebol existente, da organização que um dia o preferiu em vez de Monta Ellis, e que lhe deu uma extensão apesar dos tornozelos de papel, e que fez de si a alma do clube. Graças a Stephen Curry, escreveu-se uma bela página na história da NBA.

por LUCAS NIVEN [@lucasdedirecta]

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