What if #3: A história inacabada de Reggie Lewis

por ago 12, 2022

O desporto é, habitualmente, uma reflexão imperfeita da nossa sociedade. Tal como na vida, também no basquetebol o inesperado bate à porta de todos, por boas e más razões, alterando drasticamente um caminho que parecia certo. Devido a problemas pessoais, lesões, falta de motivação, entre outros fatores, ficamos privados de vislumbrar a grandeza contínua daqueles que, durante a sua vida, mostraram que eram capazes de o fazer.

A 3.ª edição do “What If” conta a história de Reggie Lewis, o sucessor de Larry Bird como líder e catalisador dos Boston Celtics que, aos 27 anos, perdeu a sua vida, deixando diversos capítulos da sua história basquetebolística e humana por escrever.

O encanto de Boston antes da NBA

Reginald C. Lewis nasceu a 21 de novembro de 1965, em Baltimore, no estado de Maryland e foi em Dunbar High School que Lewis deu os seus primeiros passos no basquetebol. No início dos anos 80, os Dunbar “Poets” tinham uma das melhores equipas juvenis do país, com quatro futuros jogadores da NBA: David Wingate, Reggie Williams, Muggsy Bogues e Reggie Lewis.

De 1981 a 1983, os “Poets” apresentaram um registo 100% vitorioso, com 60 vitórias no palmarés da escola de Baltimore, sendo que diversos atletas despertaram o interesse de muitas universidades norte-americanas.

Depois do sucesso em Dunbar, Lewis embarcava numa viagem até ao estado de Massachussets, mais concretamente até à Northeastern University, localizada em Boston. Os “Huskies” viriam a sair beneficiados com a chegada de Reggie Lewis, vivendo quatro anos de relativo sucesso.

Inseridos na “Eastern College Athletic Conference-North” (ECAC North), agora intitulada de “America East Conference”, e suportados pelo talento do jovem basquetebolista de Baltimore, os “Huskies” venceram a Conferência por quatro ocasiões consecutivas, garantindo bilhete anual para a NCAA March Madness.

As capacidades atléticas e de lançamento eram evidentes em Reggie Lewis, que, nos seus quatro anos em Northeastern, contabilizou um total de 2,708 pontos, marca que coloca Lewis no topo dos melhores marcadores de sempre da Universidade, lugar esse que ainda ocupa até aos dias de hoje.

Entre os diversos prémios individuais conquistados por Reggie Lewis, destacam-se os seguintes: ECAC North Rookie of The Year (1984), 3x ECAC North Player of the Year (1985-1987) e 2x ECAC North Tournament MVP (1985 e 1987).

O número “35” levava ao rubro a Matthews Arena (antiga Boston Arena), casa da Northeastern University e o primeiro pavilhão utilizado pelos Boston Celtics (1946-1955). Até parecia que o “verde” estava destinado para o jovem de Baltimore.

Dos poucos minutos de Rookie ao All-Star Game

Concluída a sua carreira universitária, o sonho da NBA tornou-se realidade em 1987. Declarando-se para o Draft e apesar de todo o potencial que lhe era reconhecido, o facto de jogar numa Universidade menos cotada acabou por lhe complicar uma possível escolha no Top 10, acabando por ser a 22.ª escolha do Draft de 1987, sendo escolhido atrás de dois dos seus colegas em Dunbar: Reggie Williams (4.ª escolha; Los Angeles Clippers) e Muggsy Bogues (12.ª escolha; Washington Bullets).

Qual era o destino de Reggie Lewis? Manter-se em Boston, desta feita para representar a franquia com mais títulos na história da NBA, os Boston Celtics. Com o objetivo de renovar o plantel e após a morte trágica de Len Bias (2.ª escolha no Draft de 1986), os Celtics procuravam acrescentar juventude ao seu “Big Three” algo envelhecido, composto por Larry Bird, Kevin McHale e Robert Parish.

Depois de dominar a Conferência Este ao longo dos anos 80 e da conquista de três campeonatos (1981, 1984 e 1986), o crescimento de equipas como os Detroit Pistons, Cleveland Cavaliers, New York Knicks e os Chicago Bulls trazia um sentimento de incerteza aos Boston Celtics, com Red Auerbach, presidente da franquia, à procura de recolocar os “verdes” no topo não só da Conferência Este, mas como de toda a NBA.

O início da carreira de Reggie Lewis não foi o que o jovem esperava. Habitualmente utilizado como “small forward”, mas com capacidade para ocupar a posição “dois”, Lewis passou a sua temporada de Rookie no banco, tapado por Larry Bird, estrela principal da equipa.

Em declarações à jornalista norte-americana Jackie MacMullan, Bird falou sobre as dificuldades de Reggie Lewis no seu primeiro ano nos Celtics. “Quando o Reggie chegou à liga, ele não sabia como jogar. Sabia lançar, ponto. Mas era um trabalhador nato, passava imenso tempo à procura de melhorar o seu jogo. Ele adorava isso.”

Com uma média de apenas 8.3 minutos por jogo e disputando apenas 49 jogos na sua primeira época como profissional, Lewis continuou a fazer aquilo que melhor sabia, trabalhando constantemente à espera de uma oportunidade de ajudar os Celtics.

Na temporada seguinte (1988/89), a troca de treinador principal (saída de K.C. Jones e entrada de James Rodgers), e uma lesão de Larry Bird levaram Reggie Lewis para o centro das atenções, passando a ocupar um lugar no cinco inicial veterano dos Celtics.

Como “sophomore”, a história do “Poet” Lewis passou a contar com o capítulo NBA, sendo que o atleta de Baltimore começou a demonstrar o talento que já havia brilhado em Boston.

Uma média de 32.8 minutos por jogo permitiu que Reggie Lewis subisse todos os seus números individuais, subindo a média de pontos por jogo de 4.5 para 18.5, acrescentando também médias de 4.7 ressaltos, 2.7 assistências e 1.5 roubos de bola por jogo.

De um momento para o outro, Red Auerbach tinha encontrado aquele que seria o líder da nova geração vencedora dos Celtics, o sucessor do legado de Bill Russell e Larry Bird, capitaneando uma franquia habituada a vencer e sedenta por novas conquistas.

Apesar do sucesso individual, a verdade é que os primeiros Playoffs de Lewis não foram os melhores, com os Celtics a serem “varridos” na primeira ronda dos Playoffs de 1989 pelos eventuais campeões, os “Bad Boys” Detroit Pistons, que se estabeleceram como os dominadores da Conferência Este entre 1988 e 1990.

A época seguinte (1989/90) foi similar para os Celtics, com Reggie Lewis a manter os seus registos individuais, mas o sucesso coletivo a ficar longe do radar de Boston, com mais uma saída prematura dos Playoffs, novamente na primeira ronda, desta feita sendo eliminados pelos New York Knicks por 3-2.

Com o fim à vista para as lendas do agora passado de sucesso dos Celtics, a temporada de 1990/91 era vista como uma das últimas hipóteses desta geração conquistar mais um título. Contudo, a época foi de consagração para a nova dinastia da NBA, os Chicago Bulls de Michael Jordan, sendo que os Boston Celtics acabaram por cair na segunda ronda dos Playoffs de 1991, perdendo, novamente, com os “Bad Boys” de Detroit.

Apesar do desalento coletivo, a verdade é que Reggie Lewis ia-se estabelecendo como uma das estrelas em ascensão na NBA e em março de 2021, em pleno Boston Garden, acabou por protagonizar uma das exibições mais marcantes da sua carreira. Num jogo frente aos eventuais campeões Chicago Bulls, Reggie Lewis desarmou o lançamento de Michael Jordan por quatro ocasiões, sendo o primeiro e único jogador a alcançar esse feito.

Em 1991/92, Lewis era, indiscutivelmente, o líder da equipa de Boston, naquela que viria a ser a última temporada de Larry Bird como jogador profissional. Na sua quinta época como profissional, Reggie Lewis foi escolhido pela primeira vez para o All-Star Game, com médias por jogo de 20.8 pontos, 4.8 ressaltos, 2.3 assistênticas, 1.5 roubos de bola e 1.3 desarmes de lançamento.

Com 2,01 m e intitulado por alguns como “Silent Assassin”, pela sua personalidade mais reservada e a sua versatilidade ofensiva, o crescimento de Lewis na defesa era mais do que evidente e um “two-way player” de grande nível, que jogava tanto como “shooting guard” ou “small forward” deliciava não só o Boston Garden, como toda a NBA.

Acompanhado por jovens como Brian Shaw e Dee Brown e veteranos como Kevin McHale, a verdade é que os Celtics voltaram a cair na segunda ronda dos Playoffs, desta feita frente aos New York Knicks, numa série disputada em sete encontros, com os Knicks comandados por Pat Riley a vencerem a série por 4-3.

Rivalidade com Michael Jordan, múltiplas presenças no All-Star Game, estas eram apenas algumas das coisas que se falavam em 1992 sobre Reggie Lewis, a esperança dos Celtics para o sucesso nos anos 90.

O final triste de um capítulo por escrever

Em 1992/93, esperava-se mais do mesmo por parte de Reggie Lewis. Já sem a presença de Larry Bird, o Boston Garden agarrava-se aos movimentos do “35” e a esperança de uma cidade habituada a vencer e sedenta por mais conquistas encontravam-se nos ombros do jovem que cresceu em Baltimore, mas que já pertencia a Boston.

Com números individuais muito similares à época transata e apesar de não ter sido escolhido para o All-Star Game, tendo a concorrência de jogadores como Scottie Pippen (Chicago Bulls) e Dominique Wilkins (Atlanta Hawks), os Celtics terminaram a fase regular na quarta posição, tendo como adversários na primeira ronda dos Playoffs de 1993 os Charlotte Hornets, equipa em que jogava o seu amigo de infância Muggsy Bogues.

A 29 de abril de 1993, em pleno Boston Garden, o Jogo 1 da série prometia imenso, com Reggie Lewis a marcar 17 pontos naqueles que seriam os últimos 13 minutos da carreira do atleta de 27 anos.

De um momento para o outro, enquanto Lewis corria para o meio-campo adversário, a fragilidade e cansaço no corpo do basquetebolista eram por demais evidentes, levando Reggie Lewis a cair desamparado. Sem aparentemente perder os sentidos, Lewis levantou-se, visivelmente cansado e sem perceber muito bem o que se estava a passar. Foi logo substituído e não mais jogou nos Playoffs, com os Celtics a perderem a série por 3-1.

No dia seguinte, Reggie Lewis foi ao Hospital de New England Baptist para procurar perceber o que se tinha passado, acompanhado por diversos médicos de confiança da franquia. Após diversos testes, foi diagnosticado com uma cardiomiopatia focal, um problema no miocárdio que pode levar a batimentos cardíacos irregulares e a ataques cardíacos.

A carreira de Lewis encontrava-se em risco, mas após consultar uma segunda opinião, o atleta foi diagnosticado com uma síncope reflexa, uma condição considerada não-letal e que dava esperanças para o regresso de Reggie Lewis aos pavilhões.

Infelizmente, a 27 de julho de 1993, durante um treino de pré-temporada na Universidade de Brandeis, Reggie Lewis sofreu uma paragem cardíaca e acabou por falecer, aos 27 anos, enquanto fazia aquilo que mais gostava.

Um final trágico para uma história que ainda tinha tanto para contar. O fim da carreira basquetebolística era uma possibilidade, mas o fim de uma vida tão jovem só demonstra a efemeridade que comanda o nosso dia a dia.

Entre 1988 e 1993, Reggie Lewis foi um de apenas seis jogadores que registou, pelo menos, 7,500 pontos, 1,500 ressaltos, 1,000 assistências e 500 roubos de bola, juntamente com cinco “Hall of Famers”: Michael Jordan, Charles Barkley, Clyde Drexler, Karl Malone e Chris Mullin.

O número “35” foi retirado pela Northeastern University e pelos Boston Celtics, numa homenagem merecida para um dos homem adorado por muitos, um basquetebolista venerado por toda uma cidade e que fica para sempre na memória dos adeptos da modalidade.

Já passaram mais de 29 anos após a sua morte, mas o legado que deixou em tão curto espaço de tempo permanecerá para sempre.

por JOSÉ PEDRO BARBOSA [@J_Pedro_Barbosa]

Autor

José Pedro Barbosa

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