Viagem no tempo à conquista que colocou os sub-20 na elite do basquetebol europeu

por jul 15, 2022

Três anos depois da conquista da divisão B do Campeonato Europeu, a Selecção Nacional de Sub-20 masculinos prepara-se para entrar em acção, este sábado, no Campeonato da Europa Divisão A. Para assinalar o começo desta caminhada, nada melhor que recordar a bonita jornada que foi essa conquista, em Matosinhos, que marcou o primeiro título português em qualquer escalão do basquetebol.

Quem aqui vos escreve acompanhou e vibrou in loco com todos os encontros – e teve a oportunidade de ir conversando com os heróis da conquista, à medida que o sonho era convertido em realidade. Puxemos o filme para trás [e peço desde já desculpa pela instabilidade dos vídeos], então, para Julho de 2019, para uma cronologia dos acontecimentos que foram da arte do MVP Rafael Lisboa ao domínio de Neemias Queta, da liderança de Henrique Barros ao realismo do seleccionador André Martins. Todos eles ingredientes de um colectivo que encontrou na união a chave da vitória.

Bons prenúncios na preparação

A equipa portuguesa venceu todos os sete jogos disputados no Congresso de Desportos e Congressos (CDC) de Matosinhos, mas a caminhada para a história já tinha começado antes, com oito vitórias em outros tantos encontros de preparação. Entre estes, o destaque vai para o triunfo sobre a selecção de Israel que, no mesmo dia da conquista portuguesa, acabou por se sagrar campeã europeia da Divisão A, na final em Tel Aviv.

No começo da preparação, o objectivo desportivo traçado pela equipa técnica e pela direcção da Federação Portuguesa de Basquetebol (FPB) era “chegar ao melhor resultado de sempre”, dizia-me na altura André Martins. Tal feito implicava chegar às meias-finais – os quatro melhores – para ultrapassar o quinto lugar conseguido nos Europeus de 2011 e 2013.

Com a evolução da preparação, o comportamento dos jovens contra equipas muito fortes deu sinais a André Martins e aos adjuntos, João Costeira e Sérgio Ramos, de que o grupo podia aspirar a “algo muito grande” para o basquetebol nacional. Subir à Divisão A passou a ser um objectivo claro ainda antes do jogo inaugural contra a Macedónia do Norte: “A partir de um determinado momento, assumimos entre jogadores e treinadores. Mesmo que não assumíssemos, estava presente diariamente que queríamos mais”, confessava o seleccionador.

Entre os jogadores, o sonho sempre existiu, dizia o capitão, Henrique Barros: “No círculo dos jogadores, sempre acreditamos na subida. Quem ia a umas meias-finais tinha dois jogos para ganhar um e subir de divisão.”

A preparação foi feita sempre com o sentimento de que o grupo tinha “algo de especial”, por vários motivos: além da “coesão fantástica” e da participação no Europeu de Neemias Queta, na altura o “potencial” primeiro português na NBA [check ✔️], o “talento” de outros membros do plantel e o facto de a Divisão B ser jogada em Portugal levou os jogadores a pensar na subida como “mais que possível”.

Dificuldade e ambição cada vez maiores na fase a doer

Nos primeiros dois jogos da fase de grupos, Portugal ultrapassou sem dificuldades as selecções da Macedónia do Norte (73-39) e do Luxemburgo (86-44).

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A selecção destacava-se pela grande capacidade defensiva, ancorada na presença interior dominante de Neemias. Essa havia sido a imagem de marca nos jogos de preparação, e a toada manteve-se ao longo do Europeu: Portugal terminou a fase de grupos com a melhor defesa da competição (49.3 pontos adversários por jogo) e só por uma vez sofreu mais de 70 pontos (85 da Geórgia) durante todo o torneio.

A primeiro “grande objectivo”, descrevia André Martins, foi atingido ao terceiro jogo, com uma vitória frente à Eslováquia (76-61) a garantir a passagem aos quartos-de-final. O peso do momento foi sentido pela equipa, que o treinador, no final do encontro, descrevia como algo “ansiosa” ofensivamente numa fase inicial do jogo.

A partir daqui era “um jogo de cada vez” e André Martins continuava a falar no objectivo das meias-finais e Neemias Queta mantinha-se na mesma linha de pensamento: “Estamos a soltar-nos e a jogar cada vez mais… Chegamos aos quartos de final e vamos tentar ganhar porque o nosso objectivo é chegar às meias. Estamos num bom caminho”.

Por outro lado, Henrique Barros confessou mais tarde que, na cabeça dos jogadores, a poeira sonhadora vitória já começava a solidificar.

Quem também acreditava era o público de Matosinhos. Mesmo em confrontos lusos contra selecções de menor calibre, o CDC esteve sempre bastante composto. No final dos jogos, a volta olímpica de agradecimento era estendida por centenas de adeptos a pedir fotografias e autógrafos com os jogadores.

A confiança era crescente e traduzia-se em qualidade de jogo. Para decidir o primeiro lugar do grupo, Portugal entrou sem dar hipótese (parcial de 15-0) frente à Bélgica, uma das mais fortes no torneio e que também acabou a subir à Divisão A. O jogo terminou com uma vitória folgada de Portugal (81-53).

Nas bancadas de Matosinhos, Craig Smith, treinador de Neemias Queta nos Utah State Aggies, a aplaudir nas bancadas uma equipa portuguesa “muito completa, bem treinada e unida”, como me descreveu. O norte-americano acrescentou que a Selecção Nacional tinha boas hipóteses de conquistar o Europeu: “Quando uma equipa defende, ressalta, marca os lances livres e mantém a bola como Portugal faz, pode ganhar qualquer jogo”.

Fase a eliminar dura de roer. E com muita união

O público, cada vez mais confiante e convencido pelas boas exibições portuguesas, encheu o pavilhão para o jogo dos quartos-de-final contra a Geórgia, outra das candidatas à subida. E que cartão de visita para a fase a eliminar. O embate foi o mais electrizante do Campeonato Europeu, com ambas as equipas a pegarem fogo da linha de três pontos: combinaram para 27 triplos marcados (13-26 para Portugal, 14-29 para a Geórgia).

Com uma exibição portentosa de Neemias Queta (26 pontos, 14 ressaltos, 6 assistências) e a mão quente de Francisco Amarante (20 pontos, 6-8 de triplo), Portugal venceu 96-85 e garantiu dessa forma a melhor classificação de sempre num Europeu.

O objectivo principal na competição estava, assim, atingido – e os portugueses ficavam com dois jogos para tentar garantir a subida à Divisão A.

O próximo alvo a abater era a Rússia, que até aqui tinha passeado pela competição. Henrique Barros admitiu, depois da competição, que o confronto era “a parede” para a equipa: “Eram as meias-finais, contra uma equipa da Rússia em que todos tinham minutos significativos, jogadores a competir a um nível europeu elevadíssimo”.

Apesar disso, André Martins e os jogadores não olhavam para o confronto de forma diferente: “Era igual jogar com a Macedónia, com o Luxemburgo, com Israel [na preparação] ou com a Rússia. Encarávamos todos os jogos da mesma forma”.

Portugal entrou forte e assumiu desde cedo a liderança – que só perdeu por instantes no terceiro quarto, já depois de ter estado na frente por 19 pontos, ainda na primeira parte.

Resultado final: 76-69 favorável a Portugal… Mas com amargo na boca.

A 34 segundos do final do terceiro período, o azar bateu à porta: Neemias Queta caiu mal sobre o joelho esquerdo na luta por um ressalto defensivo e ficou incapacitado de jogar o que restava da partida – e a final do Europeu. (Diagnóstico: entorse no joelho esquerdo e luxação da rótula. Neemias só regressou à competição em Dezembro, pelos Aggies.)

Henrique Barros lembra-se de estar no banco e de ter levado as mãos à cabeça no momento do lance. Foi um “golpe duro para a equipa”, mas Neemias “esteve sempre com a equipa, mesmo fora do campo.” Sem o poste, valeu a Portugal Rafael Lisboa: o base marcou 14 dos 21 pontos portugueses no derradeiro período, garantindo o triunfo, a subida à Divisão A e a presença na final.

Vitória, vitória, fez-se história

A final foi jogada contra a República Checa. A partida até foi equilibrada para o intervalo (34-30), mas um parcial de 22-2 para os portugueses no terceiro período (que ficou 27-11) ditou a sentença: Portugal vencia pela primeira vez um título internacional em basquetebol.

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Rafael Lisboa voltou a ser dono e senhor do jogo (21 pontos, sete ressaltos, seis assistências em 37 minutos), apoiado por Francisco Amarante (18 pontos, 12 ressaltos) e por Rui Palhares, que tomou o lugar de Neemias e deu boa conta do recado (18 pontos, seis ressaltos).

O jogo não tinha terminado (ficou 73-57) e os milhares de adeptos que encheram o pavilhão bem para lá da lotação – escadas e corredores serviram como lugares – já cantavam a plenos pulmões A Portuguesa.

Rafael Lisboa, eleito pela FIBA o MVP (jogador mais valioso) do torneio, saltou para o colo de um Neemias Queta amparado por muletas. Os dois jogadores foram seleccionados pela FIBA para o cinco ideal da competição.

E nomeemos todos os que estiveram na equipa: Vlad Voytso (que também pegou fogo um par de vezes, inclusive contra a Rússia!), João Barata, Gustavo Teixeira, Francisco Amarante, João Neves, Neemias Queta, Jorge Embaló, Henrique Barros, Rui Palhares, Rafael Lisboa, Lamine Banora e Miguel Correia.

Já com a taça nas mãos, André Martins era um homem “tranquilo”: “Temos a consciência de que fizemos um bom trabalho, todos os dias melhoramos.” A estratégia de jogo para a final tinha sido simples: sem Neemias Queta, o treinador português pediu aos colegas “o espírito dele dentro do campo”.

O seleccionador do escalão de sub-20 desde 2009 não tem dúvidas de que o percurso realizado foi “histórico e extraordinário” para o basquetebol português.

Os jogadores, ainda sem palavras, reforçavam a união do grupo e a capacidade de superação de todos. Rafael Lisboa partilhou o título de MVP com a equipa, em que “os 12 foram MVP’s”, enquanto Neemias Queta considerava que a vitória era “bem merecida”, dado o esforço do grupo: “Fomos, de longe, a equipa no Europeu que mais trabalhou.”

Ao longo de toda a competição, partilha, sacrifício, união e luta foram as palavras fortes do discurso da equipa, características que o capitão Henrique Barros apontou como o grande factor diferenciador, em declarações durante os festejos: “A este nível, o que separa as equipas é a união e a coesão”. E esses traços foram claros “nas primeiras semanas do estágio”.

Já Vlad Voytso lançou o repto para o futuro, que aproveito para encerrar esta cronologia de acontecimentos.

“Daqui para a frente, acabamos de abrir portas a Portugal para outros campeonatos. Espero muito sinceramente que Portugal continue a voar e que chegue muito longe nas competições europeias e, quem sabe, um dia, em competições mundiais”. Demorou três anos, mas o dia da Selecção de Sub-20 se estrear no Campeonato da Europa Divisão A chegou.

Se chegaste até aqui, obrigado por acompanhares a Borracha Laranja. Mereces um momento bónus desse Europeu de 2019: o pavilhão a cantar os parabéns ao Neemias (Parabéns, Quetão!)

por JOSÉ VOLTA E PINTO [@zevolta97]

Autor

José Volta e Pinto

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