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A morte fica-lhe tão bem

Durante um ano, Sylvia Fowles não esqueceu os dois ressaltos ofensivos que as Los Angeles Sparks ganharam nos últimos segundos do jogo 5 das Finais de 2016, permitindo a Nneka Ogwumike marcar o cesto do título. E durante um ano, essa memória assaltou a poste das Minnesota Lynx antes de cada treino, antes de cada jogo. Serviu de motivação para 2017, also known as a época da redenção de Fowles. Fast forward para as Finais deste ano e, de novo, Lynx e Sparks foram à “negra”. E, de novo, em Minneapolis. E, de novo, com o mesmo “filme” da temporada passada: vitória forasteira para as Sparks no jogo 1, triunfo caseiro das Lynx no jogo 2, Sparks voltam a liderar a série no jogo 3, empate na eliminatória no jogo 4 e regresso à casa das Lynx para a partida decisiva. Era a história a repetir-se. A papel químico. Na imprensa falava-se já do possível desmembramento do núcleo duro da equipa das Lynx, em caso de derrota. O fantasma de 2016 estava bem presente. A morte estava ali tão perto.

Sylvia Fowles aprendeu a lidar com a morte desde bem nova, nos bairros sociais de Miami, onde cresceu. Aos cinco anos assistiu ao funeral da avó e os irmãos mais velhos convenceram-na a despedir-se da matriarca da família, deitada no caixão. Mas o beijo provocou uma reacção alérgica à pequena Sylvia, por causa da combinação de químicos usados no líquido para embalsamar, e aquela comichão nos lábios fê-la questionar se os responsáveis pelo funeral teriam feito algo errado e se a avó estaria com comichão no corpo todo. Meteu na cabeça que queria aprender mais sobre o tema e, durante a juventude, simulava funerais dos seus animais de peluche. Actualmente, está a concluir a formação académica em Ciências Mortuárias, no American Academy McAllister Institute, em Nova Iorque, porque quer melhorar a aparência dos cadáveres e diminuir o sofrimento dos familiares nos funerais. “É algo que me relaxa e tranquiliza. Muita gente acha estranho, mas é algo que me faz feliz”, afirma.

Foi à procura de felicidade que Fowles pediu para ser trocada em 2014, então ao serviço das Chicago Sky, que a tinham escolhido na 2.ª escolha do draft de 2008. Sem propostas que convencessem os donos da equipa da cidade do vento, a poste de 1,98 metros ficou sem jogar durante a primeira metade da época de 2015, até que foi finalmente trocada para as Lynx. Com a adição de Fowles, a formação orientada por Cheryl Reeve tinha finalmente uma jogadora interior grande, mas com atleticismo mais do que suficiente para encaixar no estilo da equipa e um lançamento de meia distância que a torna letal no pick and pop. Rodeada de lançadoras de elite como Lindsay Whalen, Seimone Augustus e Maya Moore no perímetro, Sylvia Fowles teria muito espaço na área pintada para apostar em situações de 1×1. Era isto que se previa no papel. Foi isto que aconteceu no campo. E logo em 2015 as Lynx foram campeãs da WNBA, com Fowles ser distinguida com o prémio de MVP das Finais.

A antiga jogadora da Universidade de LSU está habituada a prémios individuais e conquistas colectivas. Foi assim nas sete épocas em Chicago, nas três épocas em Minnesota e nas aventuras internacionais na Rússia, Turquia e China, para não falar da selecção dos EUA. Foi campeã do Mundo (Brasil 2010) e venceu três ouros olímpicos (Pequim 2008, Londres 2012, Rio de Janeiro 2016), mas tem um gozo especial nos três prémios de Defensora do Ano da liga norte-americana. Porque adora a parte física do jogo. Em Maio, numa partida com as San Antonio Stars, saltou para desarmar a rookie Nia Coffey. Resultado desse encontro nas alturas? Coffey levou um abafo monumental e estatelou-se no solo. Fowles partiu o nariz no embate e nem pestanejou. “Sei que é estranho, mas gosto de levar pancada”, disse a 4x All-Star.

Fast forward para as Finais deste ano. Nos momentos que antecederam a bola ao ar da quinta e decisiva partida, Sylvia Fowles recordou aqueles dois ressaltos perdidos, um ano antes. E decidiu que, desta vez, a história não ia repetir-se. Marcou 17 pontos e ganhou vinte (!) ressaltos, novo recorde em Finais da WNBA, liderando as Lynx ao quarto título em sete anos. Foi eleita MVP das Finais, depois de já ter recebido, pela primeira vez desde que chegou à liga, o prémio de MVP de uma temporada regular em que atingiu máximos de carreira em eficácia de lançamento, assistências e – claro! – ressaltos ofensivos. Numa altura em que se faziam os preparativos para o funeral das Lynx, Fowles matou os críticos. E é também graças a ela que a palavra que mais se ouve, por estes dias, em Minneapolis é dinastia.