Notas soltas do Dia D, de Deadline

por fev 11, 2022Lucas Niven

A NBA viveu esta quinta-feira a trade deadline mais louca de que tenho memória. Nunca na liga tínhamos tido tanta turbulência em tantas equipas e com jogadores tão importantes: superstars ausentes (Ben Simmons), ou em baixo de forma (Russell Westbrook), ou insatisfeitas com a situação actual (James Harden) geraram todo o tipo de rumores no mundo da borracha laranja. Tínhamos a sensação de que a liga era um vulcão adormecido, e ontem entrou em erupção.

Muito haverá para dizer (e escrever) sobre o que se passou neste período de trocas, e à medida que os jogos forem acontecendo e os resultados (ou falta deles) forem aparecendo, muito se dirá sobre os ‘vencedores’ e ‘vencidos’ das negociações – o que eu acho um exercício brutalmente injusto. Os front offices das equipas são obrigados a tomar decisões, e falar a posteriori é muito fácil. É um trabalho extremamente difícil, por isso o razoável é avaliarmos o que pretenderam fazer com as suas movimentações, e que pistas isso nos dá para os franchises que defendem. O que se segue é então a minha interpretação do que se passou até ao toque da buzina, ainda meio a quente, e é essa a intenção: talvez nem tudo o que será escrito envelhecerá muito bem, mas faz parte, porque quem tomou estas decisões tem que viver com essas mesmas consequências.

Morey consegue o seu desejo…

Digam o que quiserem do homem, ele não se importa. CJ McCollum, Buddy Hield e De’Aaron Fox foram todos nomes apontados como possíveis para serem trocados por Ben Simmons. Ele sorriu, segurou as cartas, e esperou. E esperou mais um bocadinho. E ontem juntou a peça que queria a Joel Embiid: James Harden. 

Daryl Morey, com umas quantas picks à mistura, trocou em pouco mais de um ano Josh Richardson e Simmons pelo ‘Barbas’, e é por isso que ele tem este trabalho e nós não. É um agente do caos, um homem guiado por números que sabe muito bem que são os jogadores de nível mais alto que decidem títulos, e que agora junta um dos bases mais produtivos no ataque dos últimos 10 anos ao seu candidato a MVP. Morey não se importa com as picks: o objectivo é o título e nada mais. Se o conseguir será imortal e tudo terá valido a pena; caso não haja confetti em Philadelphia ele também não estará lá para lamentar a ausência de escolhas futuras do draft.

E agora, os dados estão lançados: os Sixers têm um dos dois ou três melhores duos da NBA, jogadores com perfil diversificado no perímetro (Thybulle, Green, Tobias e Niang) um criador secundário capaz (Maxey) e poder ofensivo nas reservas (Milton e Korkmaz), e deverão estar atentos ao mercado de buy-out para a posição 5, onde a saída de Drummond terá de ser colmatada. Sobram as dúvidas: como irão entender-se os dois homens fortes, que precisam ambos de bola? Harden terá de mostrar sinais de vida quando não a tem, e recorrer ao big man no ataque, algo que não faz desde Capela (e apenas a espaços, e num perfil de poste completamente diferente). Embiid terá que ser mais confortável na abordagem à defesa do bloqueio directo em zonas exteriores, uma vez que se sabe que Harden será aí explorado, e está habituado a um esquema de trocas constantes. Mas isso são pormenores na cabeça de Morey, e o objectivo foi atingido: juntar superstars primeiro, fazer as perguntas depois.

… e os Nets tornaram-se ainda mais disfuncionais

Sejamos sinceros: esta troca só acontece porque os Brooklyn Nets, algures no caminho, aperceberam-se de que iriam perder James Harden no Verão – só assim se justifica que o negócio se tenha finalmente realizado. Há pouco mais de um ano, os Nets apresentavam o seu Big 3, e deixavam Daryl Morey a ver navios, com o ‘dossier Simmons’ por resolver; ontem resolveram-lhe o problema.

James Harden foi a constante na extrema irregularidade da equipa de NY: em 114 jogos, jogou em 80 – nem Kyrie nem KD ultrapassaram os 60. Com picos de forma variáveis, esteve maioritariamente disponível ao serviço de Steve Nash, a um nível MVP na segunda metade do ano passado, e apesar da baixa de forma deste ano, continuou a guiar a equipa com a ameaça diária de triplo-duplo no meio de inúmeras ausências. Chegou a dizer que ele próprio iria dar a vacina a Kyrie Irving:

https://www.youtube.com/watch?v=Hlg9qKdZHho

Pois, se calhar não era assim tão a brincar. Enquanto toda a organização dos Nets se manteve diplomaticamente neutra na escolha de Kyrie em não se vacinar, desde a direcção a Kevin Durant passando por Nash, Harden apercebeu-se do que o rodeava: uma superstar lesionada com um histórico de lesões complicado, outra que é um jogador a part-time, e algures em Philadelphia está alguém que ele conhece muito bem e que tudo dará por um título. Se calhar ele quis o mesmo, e terá avisado Brooklyn que ou saía agora, ou em Julho.

Os Nets são, no futuro imediato, uma incógnita: quando regressa KD, cuja ausência no All-Star Game é já uma certeza? Quanto tempo até Simmons iniciar a sua temporada, e como reagirá a ser imediatamente o elemento mais importante de uma equipa, se KD não estiver e Kyrie não puder? Podemos tentar decifrar o modelo de jogo e a coabitação destas três estrelas, e certamente há muita coisa para gostar, mas cometemos este erro com os Nets ‘anteriores’ e o Big 3 acabou a jogar apenas 16 jogos juntos. 

Vamos ter que esperar para ver. O melhor que podia acontecer seria Simmons e KD regressarem de imediato após a pausa do jogo das estrelas, e ter Kyrie nos jogos fora, e começar a construir uma identidade a partir daí. Steve Nash tem muito trabalho pela frente, e apenas 10 jogos fora até ao final da época desde o ASG. As escolhas futuras de draft vindas de Philadelphia poderão ser fraca consolação face à oportunidade que o franchise perdeu em ir longe com o Big 3 que desfez ontem.

Brad Stevens foi a jogo

Depois de um início de temporada modesto e até desapontante, os Celtics estão a intrometer-se na conversa da Conferência Este, e em força: estão 11-4 no último mês e apresentam um Net Rating de +14.0, confortavelmente o melhor da liga. Jayson Tatum tem-se apresentado como um dos jogadores mais completos na NBA dos dois lados do campo, e a sua defesa em particular tem sido elite:

Com o aumento de produção da equipa, especialmente no lado defensivo, Brad ajustou as expectativas, e com um Este mais aberto que nunca, decidiu atacar a lacuna principal da equipa: o da criação de jogo.

Por troca com Josh Richardson, Romeo Langford, Dennis Schroeder, Enes Freedom e Bruno Fernando, chegaram Derrick White e Daniel Theis. De uma assentada, Boston encurta a sua rotação quando entramos na fase decisiva da temporada, e troca peças acessórias do seu plantel por dois jogadores que podem contribuir muito, e no imediato.

Derrick White é um jogador do qual sou confessamente adepto: alguém que consegue defender do 1 ao 3 com grande competência e um faro especial por blocos, junta no ataque a capacidade aceitável de lançamento (34,4% de carreira no triplo) e uma distribuição de jogo que muita falta faz aos Celtics: as suas 6.6 assistências por 36 minutos estão ao nível de Stephen Curry e Fred Vanvleet. Theis é um regresso e alguém que dá muitas coisas boas a Boston, excelentes bloqueios, e defesa interior e tiro exterior aceitáveis.

White até deverá assumir o papel de sexto homem, acumulando cerca de 30 minutos por jogo e fazendo parte do cinco que encerra os jogos: juntamente com Smart, Jaylen, Jayson e Robert Williams, há potencial para termos aqui a melhor unidade defensiva de toda a liga. Boa sorte aos vossos jogadores de perímetro favoritos, ao terem que enfrentar 48 minutos destes quatro jogadores, e o ‘Timelord’ à espera lá dentro. A seta em Boston está a apontar para cima.

Os Spurs enfrentaram o presente, e ontem escolheram amanhã

Longe vão os tempos em que os playoffs eram uma certeza em San Antonio, e a pergunta era saber o quão longe chegariam. As saídas de LaMarcus Aldridge primeiro e DeMar DeRozan depois deram lugar em definitivo à nova vaga de talento Spur, com o recente All-Star Dejounte Murray à cabeça. O conjunto do Texas tinha uma escolha a fazer: continuar com um plantel definitivamente competente embora longe de espectacular e continuar a lutar pelo play-in no Oeste, ou abraçar o rejuvenescimento da equipa, e ver o que o futuro traz. Os Spurs escolheram a segunda.

Dos activos com valor que detinham, Derrick White era também o mais velho, com 27 anos. A sua saída abre espaço para as certezas em desenvolvimento Keldon Johnson (22) e Devin Vassell (21), para tomar decisões em relação a Lonnie Walker IV (23) e Tre Jones (22), e ainda ver o que têm no benjamim da equipa Joshua Primo (19). Liderados por Murray e Jakob Poeltl (25 e 26), há uma boa base defensiva para explorar o desenvolvimento destes miúdos. À escolha de draft vinda de Boston, os Spurs juntaram ainda outra vinda dos Raptors, ao ceder Thaddeus Young, que estaria definitivamente fora da rotação com o regressado de lesão Zach Collins.

Embora pessoalmente ache que o retorno por Derrick White devesse ter sido maior, os Spurs escolheram o seu rumo: o play-in deixou de ser um objectivo obrigatório, dando lugar ao desenvolvimento interno dos seus atletas. E com três escolhas de draft na primeira ronda deste ano (a sua, e a dos Celtics e Raptors que andarão à volta do #20), mais talento poderá estar a caminho.

Raptors… huh?

Um dos segredos mais mal guardados em toda a NBA era o divórcio entre a equipa canadiana e o esloveno Goran Dragic. Desde cedo se percebeu que o base não contava para os planos dos Raptors, e este preferiu tirar uma licença com vencimento, tornando público o desejo de se juntar ao compatriota Luka Doncic nos Mavs, algo que deverá estar perto de acontecer.

Aquilo que eu não esperava era que Masai Ujiri cedesse uma escolha de primeira ronda para trocar o jogador, trazendo de volta Thaddeus Young, Devin Eubanks (entretanto já dispensado) e uma escolha de segunda ronda dos Pistons. Por que não dispensar apenas o esloveno? Masai, aparentemente, valoriza mais a escolha dos Pistons e Thad do que a sua própria escolha de primeira ronda, algo de que sinceramente discordo.

Com os Raptors em franca subida de forma, entrando na playoff picture como um adversário muito desconfortável para qualquer equipa, era sabida a sua busca no mercado por uma presença interior, que oferecesse mais certezas que o trio Achiuwa/Birch/Boucher. Ou Masai sabe algo sobre Thad que eu não sei (e aqui vale a pena dizer que ele percebe um nadinha mais disto que eu), ou pode ter aqui cometido um erro, ao ceder uma escolha de primeira ronda por algo verdadeiramente inconsequente.

O retool dos campeões

Donte DiVicenzo tornou-se peça excedentária em Milwaukee, terminando sem glória a passagem pelos Bucks, onde foi ‘draftado’ e se tornou numa peça importante da rotação. Uma lesão inoportuna que o impediu de jogar nos playoffs, a chegada de Grayson Allen, a afirmação de Pat Connaughton e o desenvolvimento de Jordan Nwora deixaram o front office com uma escolha difícil, que foi tomada em grande parte pela restricted free agency que se avizinha: DiVicenzo está disponível para aceitar ofertas de outros clubes este Verão, tendo os Bucks o direito a igualar e manter o atleta. Feitas as contas, a massa salarial estava no limite e decidiram obter algum retorno pelo jogador.

Quem chegou foi Serge Ibaka, que juntamente com um melhorado Bobby Portis e um cadavérico Greg Monroe terão que fazer as vezes do que foram PJ Tucker e Brook Lopez (pelo menos até ao seu regresso) no ano passado. Não será fácil, mas também não é fácil a vida de uma equipa a operar no limite do cap e localizada num mercado pequeno. Há a esperança que Brook regresse ainda antes dos playoffs, e os Bucks precisam dele. Até lá, merecem mérito por terem procurado uma alternativa para a sua defesa interior, mantendo o perfil de big man que pode meter o seu triplo, abrindo a lane a Giannis. Agora é esperar peloo mercado de buy-out e ver se sacam um coelho da cartola como fizeram com PJ Tucker.

Kings… bem?!

A troca que envolveu Donte DiVicenzo e Serge Ibaka foi parte de um negócio mais abrangente entre quatro equipas, e cuja parte mais interessante até foi o oficializar do divórcio entre os Sacramento Kings e Marvin Bagley III. Para sempre recordado como a escolha de Vlade Divac no draft em vez de Luka Doncic, Bagley nunca se afirmou nos Kings, quer por disponibilidade física quer por, hum… falta de jeito para jogar basquetebol. Dono de reconhecido potencial, pareceu nunca estar muito interessado em desenvolvê-lo, especialmente do lado defensivo da bola. Sem uma extensão acordada, seria logicamente um free agent este Verão, e os Kings perdê-lo-iam a troca de nada.

Provavelmente ainda sob o efeito das metanfetaminas que o levaram a ver-se livre de Tyrese Haliburton, Monte McNair agarrou no telefone e pôs-se a trabalhar, e desta vez correu bem! Numa troca que não será a mais vistosa, o GM dos Kings trouxe, a troco de essencialmente nada (uma vez que Bagley era visto como um custo afundado), Donte DiVicenzo, Josh Jackson e Trey Lyles. Um guard, um wing e um big, que não mudando o mundo de equipa nenhuma, são jogadores que podem ainda ter os seus melhores dias pela frente, e oferecem profundidade e flexibilidade nesta luta perdida que é os Kings irem ao playoff.

Porzingis já não é um Maverick. E agora, Dallas?

Bem, começar a nova fase com 51 pontos não é um mau princípio.

Ponto prévio: Spencer Dinwiddie e Davis Bertans não são melhores que Porzingis. Ainda assim, é muito difícil não gostar desta troca para os Mavs, uma lufada de ar fresco que finalmente permite pensar numa solução a longo prazo na construção de um plantel à volta de Luka. A disponibilidade de um atleta é a sua melhor valência, e os texanos arriscaram ao trazer o unicórnio dos Knicks e acreditar que recuperaria sem mazelas. Correu mal. Desde então, a pergunta legítima tem sido ‘como vamos nós virar a página depois deste investimento, e em tempo útil?’.

Os Mavericks estão a descobrir a sua identidade defensiva com Jason Kidd, algo que estes dois reforços em pouco ou nada contribuem. Mas ao ‘desdobrar’ o contrato de Porzingis em dois, ganham muita flexibilidade para o futuro, uma vez que são muito mais facilmente negociáveis. Entretanto, ganham em Dinwiddie um bom criador secundário para Luka, que se voltar a descobrir a sua melhor forma, tem um contrato razoável e pode servir de ‘seguro’ na negociação com Jalen Brunson, que vai ser bem aumentado no Verão. Em Bertans, têm um dos melhores lançadores da liga, que beneficiará em muito da criação do mago esloveno. Não é uma daquelas trades que faz a equipa subir muitos degraus de uma vez, mas pode ter feito os texanos descobrir a escada certa para o sucesso.

Os Wizards continuam sem plano para Beal

Na capital americana, a decisão número um continua sem resposta: o futuro de Bradley Beal, que agora já nem sequer controlam. Com uma lesão no pulso que o afastará da restante temporada, Beal tem também ele uma decisão importante – à beira de completar 29 anos, pode escolher permanecer nos Wizards mais uma temporada, ou tornar-se jogador livre e negociar contrato com quem quiser.

Depois de um grande trabalho a trocar Russell Westbrook por activos, os Wizards começaram a temporada muito bem (10-3, chegando a liderar o Este), uma memória distante nesta altura. Nessa fase Beal nem estava ao seu melhor, e não parece o mesmo jogador que foi o melhor marcador da liga o ano passado. Os Wizards oferecem-lhe agora um parceiro de nível All Star em Kristaps Porzingis, cuja grande interrogação será sempre a sua disponibilidade – e a possibilidade de ambos nunca virem a partilhar o court juntos é bem real. Gostava de ter visto os Wizards a acumular capital de draft mais significativo (trouxeram Vernon Carey, para avaliarem o prospect), uma vez que uma eventual saída do ‘Big Panda’ irá obrigá-los a carregar no botão de reset.

Os Hornets trocam de problema, mantendo o mesmo problema

A equipa de Charlotte tem nesta altura a sétima pior defesa do campeonato em eficiência defensiva e a quarta pior em qualidade de lançamento cedida ao adversário (eFG%); melhorar a protecção interior era uma necessidade que os olhos viam e os números confirmavam. Guiados por LaMelo Ball e Miles Bridges e com as explosões ocasionais de Terry Rozier e Kelly Oubre Jr., o grande defeito dos Hornets tem sido disputar muitos jogos na casa dos 120 pontos, onde a sua defesa pouco ou nada consegue fazer para se manter ao nível do ataque. Chega então… Trez Harrell?! Um jogador que vive ‘abaixo’ do aro, não oferecendo assim alternativa a Plumlee ou PJ Washington como ameaça vertical no bloqueio directo com LaMelo, diminuto em tamanho e envergadura como PJ e sem lançamento exterior e deficiente no bloqueio directo defensivo como Mason. Parece ser uma solução temporária e não de futuro: Trez é free agent no final da temporada, e os Hornets deverão atacar uma alternativa no defeso, com nomes como Nurkic, Mitchell Robinson ou Mo Bamba (RFA) disponíveis – movendo um dos salários de Rozier ou Hayward, os Hornets até podem ter espaço para um contrato máximo e atacar… Deandre Ayton.

por LUCAS NIVEN [@lucasdedirecta]

Lucas Niven

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