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Os primeiros tempos de Neemias na G League

Está iniciada a temporada na G League e, como era de esperar, Neemias Queta tem sido uma das figuras dos Stockton Kings, donos de um recorde de 3-1. Mesmo na liga secundária da NBA, o jovem português já teve pela frente nomes como Jordan Bell, Serge Ibaka e Harry Giles, o que ajuda a projetar um pouco mais o que Queta seria capaz de fazer na NBA.

Neemias Queta acumulou médias de 12.5 pontos (60.5% de lançamentos de campo), 6.8 ressaltos, 1.0 desarme de lançamento e 1.0 roubo de bola por jogo nas quatro partidas em que participou até agora. Tem sido notória a queda de influência e envolvimento do poste no ataque dos Kings, mas a defesa vai mantendo o nível a que já nos habituou.

Vamos analisar o que o português tem feito pela equipa de Stockton, tentando perceber o que melhorou, o que se mantém e o que é preciso alterar no jogo de Queta.

Dimensão Física

Uma das maiores dificuldades, embora esperadas, tem sido a força e o combate físico para Neemias. O poste é ainda algo esguio e tenta muitas vezes usar a parte superior do corpo para mover adversários, enquanto que estes usam a parte inferior, garantindo um ponto de gravidade mais baixo.

É notória a dificuldade de Neemias para tirar o seu adversário do sítio e aproximar-se do cesto ou a aguentar o contacto promovido pelo adversário. A dimensão física tem sido e continuará a ser trabalhada, é das vertentes mais fáceis de serem melhoradas e obviamente fará de Queta um melhor jogador. Sempre com o cuidado de não afetar a sua movimentação e capacidade de salto.

Jogo fora da bola

A participação de Queta no ataque tem diminuído à medida que os jogos vão acontecendo, seja por ordem do treinador, seja por vontade de outros jogadores se mostrarem. No início, a bola chegava a Queta no poste baixo e alto, agora nada mais tem sido do que um rim runner. Assim sendo, o português tem tido a necessidade de se adaptar, usando o seu alto QI basquetebolístico para tal.

Neemias tem aproveitado a atenção dada aos bases para aparecer nos espaços vazios, seja atrás da defesa ou no meio, quando há falta de comunicação.

Há ainda aspetos a melhorar, sendo a leitura no roll, quando a defesa sobe rápido na receção da bola, ou a capacidade para ser mais rápido a receber e a decidir, necessidades de melhoria que Queta vai aprendendo à medida que se adapta à maior velocidade do jogo profissional.

Ressalto Ofensivo

Dos 6.8 ressaltos, 2.3 são ofensivos. “António, mas se ainda há pouco falaste que ele não tem força, como é que ele tem tantos ressaltos ofensivos?”.

“Inteligência e leitura, voz estranha na minha cabeça.”

Neemias está em constante perseguição à bola e, tal como vimos no ponto anterior, aproveita a atenção dada aos bases dos Kings. Encontra o seu espaço e ataca o ressalto mal a bola sai do aro.

Poste Ofensivo

Novamente, cérebro acima da força. Poucas são as situações em que Neemias foi colocado em posição de jogar de costas para o cesto, mas parece ter aprendido com os erros passados. Lê o espaço vazio e usa o seu jogo de pés avançado para conseguir boas oportunidades de lançamento (ou faltas).

Meia-Distância

Um dos pontos mais positivos deste início de época para Neemias tem sido o lançamento de meia-distância. Queta marcou 6 dos 11 lançamentos tentados fora do pintado, alguns a chegar bem perto da linha de 3 pontos, com uma mecânica de lançamento bem interessante e cada vez mais aperfeiçoada. Nota-se esse crescimento da parte do poste, uma virtude que lhe pode trazer dividendos na NBA.

Passe

Por outro lado, a capacidade de passe de Neemias Queta tem sido pouco ou nada usada pelos Stockton Kings. Um jogador que em Utah State era usado à volta do pintado, tem sido um rim runner e dado bloqueios diretos para rolar para o cesto. Com isso, o próprio Neemias não tem arriscado tanto no passe e procura sempre a opção mais simples.

O poste português é um dos melhores passadores de entre os jogadores escolhidos neste draft, mas não tem tido a oportunidade de o mostrar. Não há, sequer, vídeos de Queta a encontrar cortadores ou lançadores com o seu passe, por isso ficam as recordações da Summer League/Combine e algo a adicionar ao playbook dos Kings.

Defesa da linha de passe

Do outro lado do campo, a conversa já tem sido outra. Aí, Queta pode brilhar e não depender tanto de outros para tal. A mobilidade era um dos focos do português antes de entrar na NBA e continua a ser. A leitura e antecipação de lances permite vários roubos de bola ou a criação de problemas no passe, principalmente quando os adversários relaxam.

Defesa 1×1

Com a preocupação atual das equipas em terem jogadores que conseguem defender várias posições, o perfil físico de Neemias ganha valor. A mobilidade, tanto dos pés como das ancas, a agilidade e a envergadura do poste permitem conseguir defender a partir do perímetro, sejam adversários diretos, seja após troca. Mesmo na NBA, não há muitos postes com esta capacidade de se manterem à frente dos atacantes e tirar a possibilidade de lançamento.

Defesa ao Bloqueio Direto

Utilizado num sistema de proteção do pintado e contenção do portador da bola até ao regresso do outro defensor em situações de bloqueio, Queta sente-se como um peixe na água. Mais uma vez, a sua facilidade de movimento e envergadura permitem retirar o lançamento ao jogador com bola e recuperar rapidamente para impedir ou alterar o lançamento.

Defesa Interior

O cartão de visita de Neemias Queta. Os adversários estão a lançar 48% perto do cesto (e isto são os que chegam a lançar) quando defendidos pelo português. Queta consegue impedir ou alterar lançamentos graças à sua capacidade de cobrir uma grande área de terreno e raramente cair em fintas. Neemias mantém-se sempre numa posição defensiva equilibrada, em ajuda quando necessário, mas sempre rápido a regressar ao seu jogador. Perto do cesto, tem bom tempo de salto e tamanho para criar problemas a qualquer finalizador.

Não tem sido deslumbrante, mas tem estado dentro do previsto o tempo de Neemias Queta ao serviço dos Stockton Kings. Acaba por ser algo preocupante o decréscimo de influência do poste no ataque da sua equipa, procurando-o mais num papel de auxílio aos bases, quando Queta provou ser muito útil a poder decidir com bola. Há vários pormenores a serem resolvidos desse lado do campo, principalmente o trabalho de aprimoramento físico, resistência à carga e leitura rápida dos acontecimentos. Tudo isso deverá vir com o tempo.

Defensivamente, Neemias está aproximadamente dentro daquilo que já tinha mostrado na NCAA. Um excelente protetor do cesto, com mobilidade acima da média e capacidade para defender do perímetro para dentro. A desvantagem física continuará a criar alguns problemas, mas a leitura dos lances e a atenção aos pequenos detalhes farão sempre de Neemias Queta um excelente defensor e um ponto positivo para a sua equipa.

por ANTÓNIO DIAS [@antoniodias_pt]

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